Você viu mas fingiu que não era com você

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 16/08/2026 07:43

O Evangelho deste domingo nos apresenta uma das parábolas mais conhecidas de Nosso Senhor: a parábola do Bom Samaritano. E talvez justamente por ser tão conhecida, exista o perigo de escutá-la sem mais nos deixarmos surpreender por ela. Nós já sabemos que devemos ajudar o próximo, sabemos que devemos ser caridosos, sabemos que não devemos passar indiferentes diante de quem sofre. Mas Nosso Senhor quer nos ensinar algo muito mais profundo, e talvez hoje seja necessário começar não perguntando se já fomos bons samaritanos, mas fazendo uma pergunta muito mais incômoda: quantas vezes nós fomos o sacerdote ou o levita que passaram de largo?

O Evangelho diz que aquele homem estava caído à beira do caminho, ferido, despojado, meio morto. Passou um sacerdote, viu-o e passou de largo. Passou um levita, viu-o e passou de largo. E depois passou um samaritano, que, vendo-o, moveu-se de compaixão. É interessante perceber que os três viram. O sacerdote viu, o levita viu, o samaritano viu. A diferença não estava nos olhos, mas no coração. Os primeiros perceberam a miséria daquele homem, mas não permitiram que aquela miséria lhes interrompesse o caminho. O samaritano, porém, viu e se aproximou.

E talvez esta seja uma das doenças mais comuns da nossa vida espiritual: nós vemos, mas passamos de largo. Vemos que alguém está sofrendo, mas continuamos andando; vemos que alguém está sozinho, mas não queremos nos incomodar; vemos que alguém precisa de um conselho, mas preferimos não nos envolver; vemos um familiar se afastando de Deus, mas pensamos que a vida é dele; vemos uma pessoa lutando contra um pecado, mas em vez de nos interessarmos por ela, julgamo-la; vemos alguém que possui defeitos, temperamento difícil, limitações, fraquezas, e rapidamente concluímos que seria melhor manter distância.

E quantas vezes fazemos isso dentro da própria família, com as pessoas que Deus colocou mais perto de nós! O marido vê a esposa cansada, a esposa vê o marido sobrecarregado, os pais veem os filhos enfrentando suas dificuldades, os filhos veem os pais envelhecendo, os irmãos conhecem as fraquezas uns dos outros, e todos podem cair na tentação de simplesmente continuar andando, como se a miséria do outro não tivesse nada a ver conosco.

Mas o Evangelho de hoje nos pergunta: você viu? E, se viu, o que fez? Porque talvez a nossa maior falta de caridade não seja aquilo que fizemos contra o próximo, mas aquilo que deixamos de fazer por ele.

O sacerdote não feriu aquele homem. O levita não o feriu. Eles simplesmente não fizeram nada. E isso deveria nos assustar, porque muitas vezes pensamos que somos bons simplesmente porque não fazemos grandes males. Não roubamos, não matamos, não prejudicamos deliberadamente ninguém, e então nossa consciência fica tranquila. Mas Nosso Senhor nos apresenta um homem ferido diante de nós e pergunta: o que você fez quando o encontrou?

A caridade começa muito antes de grandes obras. A caridade começa quando nós nos interessamos pelo outro. Começa quando deixamos de olhar para as pessoas como incômodos e começamos a vê-las como almas que Deus colocou em nosso caminho. Começa quando perguntamos como está alguém e realmente queremos saber a resposta. Começa quando percebemos que aquela pessoa está sofrendo, mesmo que ela não tenha pedido ajuda. Começa quando aprendemos a olhar para o próximo com atenção.

E depois de nos interessarmos pelo outro, precisamos aprender a aceitá-lo. Isso não significa aprovar seus pecados, justificar seus erros ou fingir que seus defeitos não existem. Significa reconhecer que aquela pessoa é uma pessoa real, com suas limitações, suas feridas, suas quedas, sua história, suas dificuldades e seus pecados, exatamente como nós também temos os nossos. É muito fácil amar uma pessoa imaginária, uma pessoa perfeita, uma pessoa que nunca nos contraria, que nunca nos irrita, que nunca nos decepciona. A caridade cristã, porém, começa a ficar verdadeira quando precisamos amar uma pessoa concreta.

E é justamente aqui que o Bom Samaritano se torna um modelo extraordinário para nós. Ele encontra um homem ferido, e não pergunta primeiro como aquele homem chegou naquela situação. Não fica fazendo uma investigação para descobrir se ele é culpado pela própria miséria. Ele não diz: "Se ele tivesse sido mais prudente, isso não teria acontecido." Ele simplesmente vê um homem necessitado e se compadece. Ele se aproxima, trata suas feridas e derrama óleo e vinho.

E aqui existe uma imagem belíssima da caridade cristã. Nós nem sempre podemos resolver todos os problemas do próximo, nem sempre temos condições de curá-lo completamente, nem sempre podemos transformar sua vida de uma hora para outra. Mas podemos fazer alguma coisa. Podemos oferecer o óleo do consolo e o vinho que arde, podemos oferecer uma palavra de conforto e também uma palavra de correção, podemos oferecer paciência e também verdade, podemos oferecer misericórdia sem abandonar a doutrina.

Talvez seja isso que Deus espera muitas vezes de nós: não que sejamos capazes de resolver tudo, mas que façamos aquilo que está ao nosso alcance para manter aquela alma viva, para impedir que a ferida piore, para conservar aquela pessoa suficientemente bem até que possa ser entregue aos cuidados daqueles que receberam de Deus o poder de curá-la.

Porque o Bom Samaritano não termina seu trabalho simplesmente deixando o homem no caminho. Ele o leva à hospedaria. E aqui, caríssimos, o Evangelho nos conduz a uma consideração que não devemos perder: a hospedaria é a Igreja.

Cristo não encontra o homem ferido e diz: "Agora que Eu cuidei de você, siga sozinho." Não. Ele o leva para a hospedaria. Ele o coloca sob os cuidados de outro. E então diz ao hospedeiro: "Cuida dele." É difícil encontrar no Evangelho uma expressão mais bonita para compreender a missão sacerdotal.

"Cuida dele": cuida daquele homem ferido, cuida daquela alma, cuida daquele pecador, cuida daquele que não sabe mais para onde ir, cuida daquele que caiu, cuida daquele que está tentando levantar-se, cuida daquele que precisa ser corrigido, cuida daquele que precisa ser consolado, cuida daquele que precisa receber a verdade, cuida daquele que precisa receber os sacramentos, cuida dele.

E aqui eu gostaria de fazer uma consideração que talvez seja especialmente importante em nossos dias: este Evangelho não foi dado por Nosso Senhor para que desprezássemos o sacerdócio, mas para que o amássemos ainda mais. Às vezes, quando ouvimos falar do sacerdote que passou de largo, podemos ser tentados a transformar o sacerdote no vilão da parábola. Podemos começar a olhar para o sacerdócio com desconfiança, como se Nosso Senhor estivesse dizendo que os sacerdotes são aqueles que não ajudam enquanto os outros fazem o bem.

Mas não é isso que o Evangelho quer nos ensinar. Pelo contrário. O Evangelho deveria despertar em nós um amor ainda maior pelo sacerdócio, porque mostra o quanto as almas precisam de homens que recebam de Cristo o mandato: "Cuida dele."

O mundo está cheio de homens que sabem falar, administrar, organizar, entreter e convencer. Mas onde estão os homens que receberam a missão de cuidar das almas? Onde estão os homens do óleo e do vinho? Onde estão os homens da doutrina e dos sacramentos? Onde estão os homens que sabem consolar, mas também sabem corrigir? Onde estão os homens que sabem dizer uma palavra doce para uma alma ferida e, quando necessário, uma palavra firme para impedir que ela morra? Onde estão os homens dispostos a passar a vida inteira cuidando das almas que Cristo lhes confiar?

É disso que precisamos. Precisamos de sacerdotes. Precisamos de muitos sacerdotes. Precisamos de jovens que compreendam que existe um chamado maior do que construir uma carreira, ganhar dinheiro, conquistar uma posição no mundo ou viver simplesmente para si mesmos. Precisamos de rapazes que sejam suficientemente generosos para ouvir um dia, no fundo da alma, a voz de Nosso Senhor dizendo: "Cuida dele."

Cuida daquela alma, cuida daquele povo, cuida daquela família, cuida daquele pecador, cuida daquele enfermo, cuida daquele moribundo, cuida daquele jovem, cuida daquela criança; e que esse rapaz tenha a coragem de responder: "Senhor, eis-me aqui."

Caríssimos, nós precisamos voltar a falar da vocação sacerdotal como uma grande honra, uma grande missão e uma grande aventura sobrenatural. Precisamos ensinar nossos meninos a olhar para o sacerdote com admiração, não como alguém que exerce simplesmente uma profissão religiosa, mas como um homem a quem Cristo confiou Suas próprias ovelhas. Precisamos rezar pelas vocações, precisamos pedir sacerdotes santos, precisamos pedir sacerdotes numerosos, precisamos pedir que Deus desperte nos jovens o desejo de entregar a própria vida pela salvação das almas.

Porque há uma coisa que o mundo não pode oferecer. O mundo pode oferecer médicos, e precisamos deles; pode oferecer professores, engenheiros, advogados, agricultores, trabalhadores de toda espécie, e precisamos de todos eles. Mas somente o sacerdote pode oferecer às almas os sacramentos, somente o sacerdote recebeu o poder de oferecer sacramentalmente o Santo Sacrifício, somente o sacerdote pode dizer ao pecador, em nome de Cristo: "Eu te absolvo dos teus pecados."

É por isso que precisamos de sacerdotes. Precisamos de homens que sejam verdadeiramente homens do vinagre e do óleo, homens que saibam que algumas feridas precisam ser lavadas e outras precisam ser consoladas, homens que saibam que algumas almas precisam ouvir a verdade e outras precisam primeiro experimentar a misericórdia, homens que saibam que a doutrina sem caridade pode ferir e que uma caridade sem verdade pode matar.

O verdadeiro sacerdote precisa carregar os dois: o óleo e o vinho, a doutrina e os sacramentos, a dor e o consolo, a firmeza e a misericórdia, a verdade e a caridade.

E aqui voltamos a nós mesmos. Porque talvez nós não sejamos sacerdotes, mas somos chamados a participar, dentro da nossa condição, desta mesma caridade. Há pessoas que Deus colocou em nosso caminho e que talvez jamais cheguem ao sacerdote se antes não encontrarem em nós alguém que lhes mostre o caminho. Talvez o nosso dever seja justamente cuidar delas, interessar-nos por elas, aceitá-las com seus defeitos, ajudá-las com paciência, corrigir quando necessário, consolar quando possível, rezar por elas e, quando chegar o momento, levá-las à hospedaria.

Talvez nós sejamos, para determinada alma, o óleo e o vinho que Deus decidiu usar para mantê-la viva.

Não desprezemos, portanto, aqueles que estão feridos. Não passemos de largo diante dos pecadores, não passemos de largo diante daqueles que têm defeitos, não passemos de largo diante daqueles que nos incomodam, não passemos de largo diante daqueles que talvez tenham caído muitas vezes. Porque nós também já estivemos caídos, nós também já fomos feridos, nós também fomos despojados pelo pecado, nós também precisávamos que alguém se aproximasse.

E Cristo não passou de largo diante de nós. Ele se aproximou, Ele nos encontrou, Ele nos carregou, Ele derramou sobre nossas feridas o óleo e o vinho de Sua graça e depois nos levou à hospedaria. Agora Ele nos diz: "Vai e faze tu o mesmo."

E talvez, caríssimos, esta seja a resolução que Nosso Senhor nos pede hoje: esta semana, não passemos de largo. Interessemo-nos verdadeiramente por alguém. Procuremos uma pessoa que está sofrendo, uma pessoa que está sozinha, uma pessoa que está afastada de Deus, uma pessoa que precisa de uma palavra, de uma visita, de uma oração, de um conselho, de uma correção ou simplesmente de alguém que a escute.

E se houver entre nós algum rapaz a quem Deus esteja chamando para o sacerdócio, não tenha medo. Não tenha medo de ouvir a voz de Cristo, não tenha medo de deixar tudo, não tenha medo de ser o homem do óleo e do vinho. Talvez Nosso Senhor esteja olhando hoje para você e dizendo aquilo que disse ao hospedeiro: "Cuida dele." E talvez, por trás desse "ele", estejam escondidas centenas de almas que você ainda nem conhece.

Que Deus nos dê muitos e santos sacerdotes. Que Nossa Senhora, Mãe dos sacerdotes, obtenha para a Igreja jovens generosos, puros, corajosos e dispostos a entregar a vida pela salvação das almas. Que nenhum chamado seja sufocado pelo medo, pelo apego ao mundo ou pela falta de generosidade.

E que nós, enquanto isso, aprendamos a não passar de largo. Que saibamos ver, que saibamos nos aproximar, que saibamos amar, que saibamos tratar as feridas com o óleo e o vinho e que, quando já tivermos feito tudo aquilo que estava ao nosso alcance, saibamos entregar as almas aos cuidados da Santa Igreja e dos seus sacerdotes, dizendo, com a confiança de quem sabe que Cristo continua cuidando dos seus: "Senhor, eu fiz o que podia. Agora, cuida dele."