Padre Lucas Altmayer, 09/08/2026 15:14
O Evangelho deste domingo narra um dos milagres mais delicados realizados por Nosso Senhor. Um homem surdo e que falava com dificuldade é conduzido até Jesus. O Senhor afasta-o da multidão, coloca os dedos em seus ouvidos, toca-lhe a língua, levanta os olhos ao Céu, suspira profundamente e pronuncia uma única palavra: Effeta, isto é, "Abre-te". Imediatamente seus ouvidos se abrem, sua língua se solta e ele começa a falar corretamente.
À primeira vista, parece apenas a cura de uma enfermidade física. Mas os Evangelhos nunca relatam milagres apenas para mostrar o poder de Cristo. Cada milagre é também uma imagem daquilo que Ele deseja realizar em nossa alma. E este homem representa admiravelmente cada um de nós.
Todo pecador é, espiritualmente, um surdo-mudo.
O pecado faz exatamente isso com a alma. Primeiro, fecha-lhe os ouvidos; depois, prende-lhe a língua. Primeiro deixa de ouvir a Deus; depois deixa de falar de Deus. É por isso que Nosso Senhor começa a cura pelos ouvidos. Poderia ter começado pela língua. Afinal, era o defeito mais visível. Todos percebiam que aquele homem não falava bem. Mas Cristo sabe que ninguém pode anunciar aquilo que primeiro não escutou. Antes de falar, é preciso ouvir. Antes de ensinar, é preciso aprender. Antes de corrigir os outros, é preciso deixar-se corrigir por Deus.
Esta ordem não é apenas a ordem do milagre. É a ordem da vida espiritual.
São Paulo dirá mais tarde uma frase que ilumina profundamente este Evangelho: "A fé vem pelo ouvido." A fé não nasce dos nossos raciocínios, nem da nossa eloquência, nem da nossa capacidade de convencer os outros. Ela entra na alma quando aprendemos a escutar a voz de Deus. É por isso que Cristo abre primeiro os ouvidos. Porque antes de existir um cristão que anuncia, deve existir uma alma que escuta.
Talvez aqui encontremos uma das maiores doenças do nosso tempo. Nunca houve tanta gente falando, nunca houve tão pouca gente escutando. Todos têm opinião sobre tudo. Todos comentam, julgam, discutem, ensinam. Vivemos cercados de vozes, de notícias, de vídeos, de debates, de mensagens. Cada um quer dizer a última palavra. Cada um quer ser ouvido.
Mas quem ainda sabe ouvir? Quem ainda escuta verdadeiramente a Deus? Quem lê o Evangelho disposto a mudar de vida, em vez de apenas procurar nele uma confirmação das próprias ideias? Quem aceita uma correção sem imediatamente justificar-se? Quem recebe um conselho com humildade? Quem ainda consegue fazer silêncio para ouvir a própria consciência?
A forma mais profunda do orgulho não é falar demais, é não saber ouvir. Todo orgulho nasce dos ouvidos fechados.
O orgulhoso já chega convencido de que sabe. Escuta apenas o suficiente para responder. Não aprende, porque não admite precisar aprender. Não se deixa corrigir, porque acredita estar sempre certo. Lê apenas aquilo que confirma suas opiniões. Reza, mas continua ouvindo apenas a própria voz.
O primeiro sintoma do orgulho não é falar muito, é deixar de ouvir. Por isso todo orgulhoso é, espiritualmente, um surdo. E quando deixamos de ouvir a Deus, acontece inevitavelmente a segunda enfermidade.
Tornamo-nos mudos. Não porque percamos a capacidade física de falar, mas porque já não temos nada de Deus para dizer.
Reparemos como isso acontece lentamente. Primeiro, deixamos de ouvir a consciência quando ela nos acusa. Depois deixamos de ouvir os bons conselhos daqueles que nos querem bem. Os filhos desprezam os pais, os fiéis desprezam os padres, os católicos desprezam a Igreja, e desprezamos toda a autoridade constituída.
Em seguida, já não ouvimos a Igreja, nem os mandamentos, nem a doutrina católica. Pouco a pouco, vamos ouvindo apenas a nós mesmos. E quando só ouvimos a nós mesmos, nossa língua continua falando de muitas coisas, mas já não fala de Cristo.
Falamos de política, falamos de futebol, de dinheiro, de trabalho, das notícias, das redes sociais, da vida dos outros. Mas quase nunca falamos de Deus. Não porque tenhamos perdido a voz, mas porque deixamos de escutá-Lo.
Caríssimos, observemos ainda como Nosso Senhor realiza este milagre. São Marcos descreve cada gesto cuidadosamente. Jesus afasta aquele homem da multidão. Coloca os dedos em seus ouvidos. Toca-lhe a língua. Levanta os olhos ao Céu. Suspira. Depois pronuncia uma única palavra: Effeta. Nada disso é por acaso.
Cristo poderia simplesmente dizer: "Sê curado." Mas deseja ensinar-nos que toda verdadeira cura da alma vem do Pai, por isso levanta os olhos ao Céu. Suspira, porque contempla diante de Si a miséria produzida pelo pecado. Aquele homem é uma imagem da humanidade inteira, incapaz de ouvir a voz de Deus e incapaz de proclamá-La. O suspiro de Cristo é quase o gemido da criação inteira, ferida pelo pecado e esperando a redenção.
Depois pronuncia uma única palavra. Effeta. "Abre-te."
A voz que abre os ouvidos do surdo é a mesma voz que um dia chamará Lázaro para fora do sepulcro. É a voz do Criador, diante da qual toda enfermidade, todo pecado e até a própria morte devem recuar. Cristo veio precisamente para abrir aquilo que o pecado havia fechado. Abre os ouvidos para que a verdade possa entrar. Abre a boca para que a fé possa ser confessada. Abre o coração para que a graça possa habitar nele.
E este milagre continua acontecendo. Cada confissão bem feita é um novo Effeta, cada sermão acolhido com humildade é um novo Effeta, cada vez que abandonamos um pecado porque escutamos a voz de Deus, Cristo repete sobre nossa alma aquela mesma palavra. "Abre-te."
Façamos, portanto, uma resolução muito concreta. Nesta semana, procuremos falar menos e ouvir mais. Reservemos diariamente alguns minutos de verdadeiro silêncio diante de Deus. Leiamos um trecho do Evangelho sem pressa, não para encontrar argumentos, mas para permitir que a Palavra nos transforme. Quando alguém nos corrigir, resistamos ao impulso de responder imediatamente. Escutemos primeiro. Talvez Deus esteja falando por meio daquela correção.
Espero que o maior fruto espiritual desta semana não venha de uma palavra que diremos, mas de uma palavra que finalmente aprenderemos a ouvir.
Caríssimos, o mundo sofre por excesso de vozes e por falta de escuta. Há muito barulho e pouca verdade. Há muitas opiniões e pouca sabedoria. Há muitos discursos e pouca contemplação. A Igreja, porém, sempre floresceu por homens e mulheres que primeiro aprenderam a ouvir Deus para depois anunciar Sua Palavra. A Igreja vive mais nos locais em que os homens e mulheres falam menos: nos mosteiros.
Peçamos hoje que Nosso Senhor realize também em nós este milagre. Que toque nossos ouvidos fechados pelo orgulho, pela distração e pelo pecado. Que desate a nossa língua, para que tenhamos coragem de confessar a fé e de falar d'Ele sem respeito humano. E que repita sobre cada um de nós aquela palavra que atravessa os séculos e continua transformando almas: Effeta. Abre-te.
Caríssimos, dentro de poucos dias nosso país entrará novamente em campanha eleitoral. É um tempo em que facilmente as paixões humanas se exaltam. As conversas tornam-se discussões; as discussões transformam-se em brigas; as famílias dividem-se; amizades antigas se rompem; perde-se a paz por coisas que, dentro de poucos anos, quase ninguém lembrará. É justamente nesses momentos que o cristão deve vigiar ainda mais. Não permitamos que as paixões políticas nos tornem novamente surdos e mudos. Surdos para ouvir a voz de Deus, porque passamos o dia inteiro ouvindo apenas comentaristas, candidatos e notícias. E mudos para anunciar Cristo, porque nossa língua já não fala senão de eleições, estratégias e disputas. Um católico pode e deve interessar-se pelo bem comum, formar retamente sua consciência e cumprir seus deveres cívicos. Mas nunca deve permitir que a política ocupe, em seu coração, o lugar que pertence somente a Deus. Se uma discussão política lhe faz perder a caridade, a paz ou o domínio de si, então talvez o problema já não seja político, mas espiritual. Nenhuma eleição vale a perda da graça de Deus. Nenhum candidato merece que pequemos contra a caridade. Nenhuma disputa justifica que deixemos de reconhecer, no outro, um homem por cuja salvação Cristo derramou o Seu Preciosíssimo Sangue.
O demônio ficará satisfeito tanto com um homem de direita quanto com um homem de esquerda, conquanto ambos deixem de ser homens de Deus. Espero que já tenhamos tido a maturidade suficiente para compreender que nenhum dos nossos políticos está interessado em Deus, nenhum é um homem de Deus. Não vale a pena brigarmos por eles.
Não permitamos que as paixões deste mundo nos devolvam à surdez e à mudez espirituais. Que não sejamos surdos para Deus porque ouvimos demais os homens, nem mudos para Cristo porque falamos demais das coisas da terra.