sermão de despedida do apostolado de belém

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 12:27

                   Desde a minha infância uma só coisa eu queria para meu futuro: ser Padre. Nunca esquecerei quando, ao ver meu pároco paramentado para a Missa, surgiu em mim o desejo de ser sacerdote. Aos 14 anos deixei minha família e iniciei minha formação no Seminário Menor Maria Auxiliadora. Eu sempre quis ser padre, e a Igreja sempre confirmou este desejo por meio da formação que ao longo dos anos eu recebi. Servir a Deus no sacerdócio foi o desejo de minha vida. E Belém me ensinou a ser aquilo que mais quis: padre!

                Aqui eu aprendi a ser Padre. Durante todos os meus anos de formação eu pensava em como seria ser sacerdote, como seria celebrar, absolver, batizar, consagrar o Corpo e o Sangue de Cristo. Pensava quase que diariamente nos fiéis para quem um dia eu seria sacerdote. Nunca me esquecerei quando recebei, um mês depois da minha ordenação, a minha nomeação: seria colaborador em nosso apostolado de Belém! Não era o que diziam os rumores, nem imagina vir para Belém. Fui logo procurar na internet algo sobre esta cidade que, desde então, não saiu de minha mente nenhum dia sequer. Vocês sabem, as notícias não foram empolgantes: as duas primeiras reportagens falavam de um comércio de açaí que havia sido fechado por adicionar jornal para engrossar o bendito fruto paraense, e a reportagem que tratava da vida dos pescadores e como eles se alimentavam de turu. Nada muito empolgante, pensei eu naquele momento. E errei feio! Não fazia ideia do que Nosso Senhor me reservava!

                Cinco anos vivendo nestas terras e o que não faltou foi empolgação! Nada mais empolgante do que aprender a ser padre. E para aprender a ser padre é preciso passar por algumas conversões. Belém me ensinou a ser padre. E, para louvar o sacerdócio católico, objetivo deste sermão, quero dizer-lhes como é que aprendi isto.

                Todo jovem padre sai do seminário completamente envolto naquela atmosfera que ele respira desde o dia de sua ordenação! Jovem, dinâmico e completamente enamorado da nova vida! Não quer saber de mais nada que não seja o seu ministério. Não pensa em férias, em descanso, não mede energia, não conhece mais a palavra cansaço e se cansa até isso parece muito lindo! Quer ser o melhor, derramar o melhor de si, dar tudo! É sacerdote de Jesus Cristo, quer salvar a todos, tem pavor do pecado, quase nem se lembra mais que um dia foi pecador. É o novo Dom Bosco entre nós, um São Felipe Neri ressuscitado! Nas homilias só quer falar daquilo que enche, preenche o seu amor: fala do evangelho, explica as escrituras. Num primeiro momento seus sermões são pura exegese, só quer falar daquilo que é o grande amor de seu coração neossacerdotal. É lindo um coração de jovem padre! Ele é o padre mais feliz do mundo! (desculpe padre Alberto, eu sei que este título é seu, mas um dia eu também me outorguei o mesmo título).

                Mas aí o padre percebe que seus conselhos não são sempre ouvidos, que os penitentes retornam ao mesmo pecado! O padre percebe que seus fiéis não são os fiéis de São Felipe Neri e que sua juventude não é a juventude de Dom Bosco. E vai nascer a necessidade de uma conversão: o padre precisará mudar de método: troca a exegese pela moral, já não fala mais com o brilho nos olhos ao explicar as escrituras, agora precisa ser mais claro na moral. Corrigir nas homilias a má conduta dos fiéis! A exegese acaba esquecida e a conduta prática ganha cada vez mais espaço. O padre aumenta os esforços para salvar a qualquer custo, com seus esforços, os fiéis que Deus lhe confiou: no sermão vai ensinar a conduta moral do povo: como namorar, como usar a internet, que rotina devem ter, qual gênero musical ele precisa ouvir, como se vestir etc. Vai usar o vocabulário de proibir isso ou aquilo. Vai adotar uma postura mais rígida.

                E é aqui, bem aqui, que vai nascer a crise da decepção: decepção com os fiéis e decepção consigo mesmo. Decepção com os fiéis pois por quem ele mais trabalhou serão os mais ingratos. Será criticado por tudo e por todos: se fala só do evangelho, é um leviano e se não fala é um inculto bíblico; se fala pouco, não preparou a homilia, se fala muito é enrolado; se anda com os jovens, não gosta de velhos, se anda com velhos, não gosta dos jovens; se confessa rápido é impiedoso, se confessa devagar não faz a fila andar. Se reza a missa pela manhã, não pensa em quem vem a noite. Se reza a noite é um preguiçoso. De repente, o padre amigo de todo mundo não é mais tão bom assim. O anterior é sempre melhor.

                E decepção consigo mesmo: ele percebe que apesar de ser sacerdote de Jesus Cristo, permanece a sua condição de pecador. Ainda tem muito o que se exercitar para ser um bom cristão: a paciência, a obediência, a disciplina da vida de oração, o desapego, a preguiça, a castidade, tudo permanece um grande campo de batalha em que muitas vezes o Padre não é quem ele gostaria de ser. E se decepciona consigo mesmo.

E o padre vai perdendo o encanto inicial. Angustia-se e nas angústias da vida, o que ganha de peso perde de cabelo. Nasce aquela tentação de tornar-se um funcionário do sagrado: desempenhar as funções sagradas e diminuir seu ardor e zelo apostólico.  Fazer o que se espera dele em seu mínimo, não se preocupar com mais muita coisa.

Mas, Deus conhece os que Ele elege. E quando tudo ficar obscuro, na noite escura do caminho sacerdotal, o padre vai aprendendo que o que sempre funcionou ainda hoje funciona. Ele vai redescobrindo a ser padre. Descobre que ser sacerdote como Cristo é ser também vítima com Ele. Lança fora todo raciocínio humano e recomeça: que falem mal de mim, importa o que pensa Nosso Senhor de mim! Não importa quem são os fiéis, se falaram ou não falaram mal, se me ouvem ou não me ouvem, se criticam ou não criticam! Não importa se meus conselhos na confissão ou nos sermões são seguidos ou não! As coisais não dependem dos nossos artifícios humanos, dos nossos projetos humanos e da nossa criatividade humana! E o padre volta a fazer o que ele fazia lá no começo: mas sem aquela expectativa pueril, sentimental, exagerada, de que tudo depende dele!  Ele entende na oração que tudo depende de Deus! Só de Deus! E, como Pedro, que só teve sucesso depois que jogou as redes sob a ordem de Cristo, o sacerdote descobre que não é para inventar nada, é só para fazer o que fazia antes, mas agora confiando em Deus e desconfiando completamente de si mesmo! E aí, só aí, é que o padre se entende: o sacerdote de Cristo que com Cristo é vítima! Antes da ordenação ele sabia disso, agora ele vive isso, e foi preciso passar por tudo isso para aprender a ser sacerdote de verdade, segundo o coração de Cristo.

E rebrilha o sacerdócio de Cristo, e ressurge o sacerdócio de Cristo e o padre volta ao seu primeiro amor. Ele aprendeu a ser mais padre.

                Aqui estou eu, aprendendo a ser padre, infinitamente grato a Deus pela cruz, pela noite, pela angústia e pelas provações: elas me ensinaram a ser padre! Cada vez que Deus quebrou, destruiu a minha vontade própria, a graça da ordenação reviveu em mim!

                E vocês, meus amigos queridos, vocês me ensinaram a ser padre! Belém, o apostolado de Belém, foi o instrumento que me ensinou a ser padre! Não há ódio, não há tristeza e raiva de nada e nem ninguém. Todos fomos instrumentos para a grande obra do sacerdócio católico.

                Eu sei que quem conduz este apostolado, quem guia este apostolado é Nossa Senhora de Nazaré! Nunca, jamais, eu duvidei de que os padres que aqui estão, estão porque Ela escolheu para que estivessem. Portanto, depois de agradecer a Jesus Bom Pastor a graça do sacerdócio, agradeço a Virgem Santa de Nazaré pela delicadeza de me ter escolhido para estar aqui! Agradeço, querida Mãe, porque a Senhora quis que aqui eu aprendesse a ser padre, perto desta terra que é Tua, junto deste povo que é Teu!

                Agradeço ao Instituto Bom Pastor, na pessoa de nosso querido superior, o Pe. Ivan, por ter me nomeado aqui, em Belém do Pará. Muito obrigado, querido Padre, pelos anos vividos juntos, em que tentamos, e sei que conseguimos, fazer com que a caridade divina e a caridade fraterna fossem sempre o fio condutor de nossa relação!

                Agradeço aos demais sacerdotes aqui presentes que foram muitas vezes fonte da graça de Deus e sinais de amizade que a Divina Providência colocou em nossas vidas.

                Agradeço, com dívida de gratidão eterna, a cada um de vocês, queridos fiéis. Muito, muito obrigado por toda paciência, por tanta generosidade, por tanta amizade! Os senhores estarão sempre entre as melhores lembranças de minha vida. Perdoem-me por não ter sido melhor! Obrigado por terem sido o instrumento de Deus que me ensinou a ser sacerdote.

                Que seja louvado o sacerdócio católico! Que resplandeça  a beleza deste santo sacramento! Que cantem os anjos e confessem os homens que poucas coisas neste mundo são tão sublimes quanto o sacerdócio católico!