para a festa de são luis gonzaga

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 21/06/2026 18:33

Toda a liturgia de hoje parece envolver São Luís Gonzaga numa atmosfera quase angélica. O Evangelho nos fala dos anjos de Deus que contemplam continuamente a face do Pai.

As orações da Missa recordam a pureza admirável daquele jovem santo. Toda a sua vida parece possuir algo daquela inocência luminosa que nos faz pensar mais no Céu do que na terra.

E talvez, ao contemplarmos São Luís Gonzaga, sintamos uma certa tristeza. Porque a altura da pureza em que ele viveu parece tão elevada que quase nos intimida. Talvez muitos de nós possamos dizer: "Mas eu não sou São Luís." "Eu tenho um passado." "Eu tenho pecados." "Eu tenho cicatrizes." "Eu não conheço essa pureza angélica."

E a própria Igreja parece colocar essas palavras em nossos lábios. Porque na oração da coleta ela não pede que obtenhamos aquilo que São Luís obteve pela pureza. Ela pede algo muito mais humilde. Pede que, já que não pudemos imitá-lo na inocência, possamos ao menos imitá-lo na penitência. Como se dissesse: "Senhor, não tivemos a pureza de São Luís. Dai-nos ao menos as lágrimas da penitência."

E talvez exista nisso uma profunda esperança para todos nós. Porque a pureza é uma grande estrada para Deus, mas a penitência também é. E São Luís viveu perfeitamente as duas.

Se muitos santos chegaram ao Céu pela inocência, muitos outros chegaram pelas lágrimas da penitência. São Pedro não foi São João, Santa Maria Madalena não foi Santa Inês e Santo Agostinho não foi São Luís Gonzaga, mas todos são santos.

Porque Deus possui muitas estradas para conduzir os homens ao Céu e uma das mais belas é precisamente a penitência. Ora, Nosso Senhor foi claríssimo: "Se não fizerdes penitência, todos perecereis igualmente." Não disse: "Se não fizerdes milagres." Não disse: "Se não tiverdes grandes talentos." Não disse: "Se não realizardes grandes obras." Disse: "Se não fizerdes penitência."

Porque a vida cristã não é outra coisa senão a vida de uma conversão contínua. E talvez um dos maiores males dos nossos tempos seja justamente o desaparecimento da ideia de penitência. Os homens querem tudo, exceto converter-se. Querem a salvação sem a cruz. Querem Cristo, mas não querem mudar de vida. Querem o Céu, mas não querem abandonar os pecados. Ora, isto é impossível. Porque a porta do Céu tem a forma da Cruz.

Mas é preciso compreender o que é a verdadeira penitência, porque muitos imaginam que ela consiste apenas em alguns sacrifícios exteriores. E isto é pouco.

A alma da penitência é a caridade. A verdadeira penitência nasce quando o homem contempla a bondade de Deus e, por amor a Ele, começa a detestar os seus pecados. Não apenas porque o pecado merece castigo. Mas porque o pecado ofende Aquele que é infinitamente amável.

E quanto mais cresce a caridade, maiscresce a penitência, porque quanto mais amamos, mais sofremos por aquilo que desagrada ao amado. É por isso que os santos choravam tanto os seus pecados.

Não porque fossem maiores pecadores, mas porque amavam mais. E quanto maior é a caridade, mais os pecados são apagados. Porque a caridade cobre uma multidão de pecados. E é por isso que a penitência não é uma coisa triste. Ela é, no fundo, o amor que deseja voltar para Deus. É a caridade em forma de lágrimas. É a caridade em forma de conversão. É a caridade em forma de arrependimento.

Mas esse arrependimento interior precisa traduzir-se em obras. Porque o amor verdadeiro sempre procura manifestar-se. E é por isso que a Igreja sempre amou as obras de penitência: O jejum, a abstinência, as mortificações, as esmolas, as vigílias, as pequenas renúncias, a aceitação paciente dos sofrimentos da vida, as humilhações suportadas por amor de Deus, as contrariedades recebidas sem murmuração.

Tudo isso são obras de penitência, tudo isso são maneiras pelas quais a caridade se torna visível, tudo isso são formas pelas quais dizemos a Deus: "Senhor, eu Vos amo mais do que amo a mim mesmo."

E talvez aqui esteja uma das mais belas diferenças entre o espírito do mundo e o espírito dos santos. Os homens do mundo fogem de tudo aquilo que custa. Os santos procuravam transformar tudo aquilo que custava em amor. Os homens modernos perguntam: "Como posso sofrer menos?" Os santos perguntavam: "Como posso amar mais?"

Caríssimos, não nos entristeçamos por não sermos São Luís Gonzaga. Não nos entristeçamos por não termos conservado uma pureza angélica. Talvez Deus não nos tenha reservado o caminho da inocência. Mas ainda nos deixou o caminho da penitência. E quantos santos entraram no Céu por esse caminho! São Pedro entrou, Santo Agostinho entrou, Santa Maria Madalena entrou, São Camilo entrou, Santo Inácio entrou.

E talvez muitos de nós também entremos por ele. Porque Deus sabe fazer santos não apenas com os lírios da inocência, mas também com as lágrimas do arrependimento e da penitência.

E, na verdade, existe uma beleza particular nas almas penitentes. Porque elas conhecem melhor a misericórdia. Conhecem melhor a paciência de Deus. Conhecem melhor o preço do Sangue de Cristo. Conhecem melhor a alegria do perdão. E talvez amem mais precisamente porque lhes foi muito perdoado.

Por isso, caríssimos, proponho hoje uma resolução muito concreta. Aprendamos a amar a penitência. Não como quem ama o sofrimento pelo sofrimento. Mas como quem ama a Deus. Não fujamos de todas as cruzes. Não procuremos uma vida sem renúncia. Não desperdicemos as pequenas mortificações que a Providência nos envia todos os dias.

Aceitemos com mais paciência as contrariedades. Façamos pequenas renúncias voluntárias. Guardemos algum jejum. Privemo-nos de alguma comodidade. Suportemos com mais amor os defeitos do próximo. Ofereçamos a Deus os sofrimentos inevitáveis da vida. E façamos tudo isso por amor.

E, se não tivemos a felicidade de alcançar aquilo que São Luís Gonzaga alcançou pela pureza angélica, peçamos hoje a Deus esta graça admirável: que consigamos, pela penitência, alcançar aquilo que ele alcançou pela inocência.  E que as lágrimas dos pecadores que somos, nos conduzam um dia à alegria dos santos.