o pentecostes e o dom da fortaleza

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 15:01

Hoje é Pentecostes e, como outrora os Apóstolos junto da Virgem Maria, reunimo-nos hoje para celebrar o envio do Espírito Santo sobre a Igreja. O Pentecostes, assim como a Páscoa, era uma festa muito solene entre os hebreus e era figura da festa que hoje celebramos nós, cristãos.

O Pentecostes dos hebreus foi instituído como lembrança da entrega que Deus lhes fizera, no Monte Sinai, entre relâmpagos e trovões, da Lei escrita em duas tábuas de pedra, cinquenta dias depois da Primeira Páscoa, isto é, depois de os hebreus terem sido libertados da escravidão do Faraó.

O que estava prefigurado no Pentecostes dos hebreus realizou-se no dos cristãos, quando o Espírito Santo, em meio a um trovão, desceu sobre os Apóstolos e a Virgem Maria e lhes imprimiu nos corações a Nova Lei, por meio do seu divino amor. Línguas de fogo pousaram sobre a cabeça de cada um dos que estavam no cenáculo.

Os Apóstolos, depois que ficaram cheios do Espírito Santo, de ignorantes que eram, começaram a entender os mais profundos mistérios e as Sagradas Escrituras; de tímidos, tornaram-se corajosos para pregar a doutrina de Jesus Cristo; começaram a falar diversas línguas e operaram grandes milagres.

Percebam, caríssimos: os Apóstolos eram uma coisa antes da descida do Espírito Santo, mas passaram a agir de uma maneira absolutamente diferente depois que o Santo Espírito foi derramado sobre eles. São Pedro, que não compreendia bem o que Jesus queria e que era medroso, depois de receber o Espírito Santo, vai ao templo pregar a doutrina de Jesus e enfrentar com bravura os que mataram Jesus. Como pode Pedro passar a entender o que antes não entendia e ter coragem para fazer o que antes não tinha? É que ele recebeu o Espírito Santo e, de Pentecostes em diante, seu agir passou a ser um agir não mais puramente humano, mas inspirado e movido pelo Espírito que Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu enviar depois que subisse aos céus. Depois de Pentecostes, os Apóstolos, e toda a Igreja, passam a viver sob o modo como o Espírito Santo os faz viver.

 

E como o Espírito Santo age em nós? Age, de maneira particular, por meio dos seus dons. Agir de maneira humana é agir, na graça de Deus, por meio das virtudes que nos são infusas. Agir de maneira divina é agir movido por Deus, segundo os dons do Espírito Santo. O Santo Espírito infunde em nós dons, ou seja, coisas puramente gratuitas, para que tenhamos um agir divino, isto é, movidos diretamente por Deus. Isso explica por que, em um momento, os Apóstolos eram fracos e esquecidos e, instantaneamente, tornaram-se robustos, inteligentes e corajosos. Assim o foi, pois eles foram inteiramente movidos pelo agir do Espírito Santo, o qual os fez operar segundo os seus dons.

Uma verdade frequentemente esquecida por nós, queridos amigos, é que, assim como os Apóstolos, todos nós recebemos o Espírito Santo. Em uma alma santificada, isto é, em estado de graça, está presente não somente esta graça, mas também as virtudes e, de maneira particular, os dons do Espírito Santo. Assim como os Apóstolos, nós também podemos agir com um agir muito mais divino do que humano. Podemos deixar de ser o que somos, fracos no combate, impiedosos, ignorantes, imprudentes, tíbios etc., e nos tornarmos aquilo que Deus quer que sejamos, fortes, sábios, prudentes, piedosos, tementes ao Senhor etc. Para isso, basta que peçamos a Deus Espírito Santo que aja em nós com seus dons, basta que nos abramos à graça de Deus e sejamos fiéis a ela, basta que invoquemos com confiança o Paráclito, a fim de que Ele aja em nós com seus dons.

Hoje, gostaria de lhes falar especialmente da importância de se pedir ao Santo Espírito que aja em nós com o dom da fortaleza.

De onde vem a força que move a Igreja? De onde vem a força que faz os verdadeiros cristãos serem inabaláveis? O que faz com que alguém prefira permanecer na graça, resistir ao pecado, morrer, a pecar? O que faz com que alguém tenha coragem suficiente para proclamar ao mundo a condenação do mundo e a salvação que vem de Deus?

O que faz, meus queridos, com que alguém tenha força suficiente para vencer seus próprios pecados, suas más inclinações e seus maus hábitos? De onde vem a força que lançou santos nas roseiras espinhosas e nos barris de gelo, para que não sucumbissem à tentação contra a carne?

De onde vem a força que faz com que doentes em estado terminal, diante de doenças terríveis, suportem a dor com resignação e serenidade, sem que percam a fé, mas, antes, testemunhem com ainda mais ardor a fé em Deus e sua Igreja?

A força destes fiéis vem de Deus. É um agir mais divino do que humano. É a fortaleza que vem do Espírito Santo. Os santos parecem loucos, mas é porque eles assim são taxados por todos aqueles que não compreendem que o agir de um cristão não deve ser puramente natural, nem segundo as virtudes apenas, mas segundo os dons do Espírito Santo. Os cristãos têm um outro motor, que é o próprio Deus. O que os outros vão pensar? Será que ficarei sozinho e abandonado? O que me acontecerá se eu deixar tal e tal ocasião? Tudo isso nem passa pela cabeça de quem age movido por Deus.

A fortaleza, meus amigos, é frequentemente um dom que nos falta. E, entretanto, é um dos mais necessários. Em virtude deste motor, desta fonte, ou seja, da fortaleza infundida pelo Espírito Santo, sobretudo no sacramento do Crisma, o mundo pôde contemplar, por mais de vinte séculos, incríveis maravilhas. Viu milhões de almas, ricos e pobres, velhos e jovens, doutos e ignorantes, vivendo em todos os estados e condições, em meio a todo tipo de perigo, fortes, cheios de coragem, constantes na execução de seus deveres cristãos, em superar as tentações do mundo, as tentações do demônio e as tentações da carne, em combater todo tipo de inimigo e perigo.

Muitas vezes, em nossas vidas, haverá o dilema que se apresentará inexoravelmente: se eu quiser permanecer na graça de Deus, ou escolho o heroísmo, ou escolho o pecado mortal, apenas um destes dois. Não basta a simples virtude da fortaleza, é necessária a ação do dom da fortaleza.

Existem ocasiões em nossa vida em que, se quisermos permanecer na graça e no amor de Deus, é necessário resolvermo-nos a perder tudo, os bens, as honras e, no caso do martírio, a própria vida. (apagar um aplicativo, decidir-se a nunca mais fazer tal coisa, frequentar tal companhia, ir se confessar etc.).

Fica claro, meus amigos, que o dom da fortaleza não é necessário apenas aos heróis, aos mártires ou para o cumprimento de coisas extraordinárias. É necessário a todos os homens para que consigam sua salvação eterna. A vida de um cristão é uma contínua batalha sobre a terra. Contra tudo e contra todos, contra nossa própria natureza corrompida.

Quando o Espírito Santo age em nós, por meio do dom da fortaleza, Ele proporciona à alma uma energia inquebrantável na prática da virtude; destrói por completo a tibieza na vida de oração (pois a maioria das almas desiste por cansaço e rotina); faz com que a alma se conserve valente em todos os tipos de perigos e diante de todos os inimigos (inimigos: todos os que quiserem perseguir os bons propósitos); propõe à alma o heroísmo das pequenas coisas, além do heroísmo das grandes.

Como, então, fomentar este dom tão necessário? E digo fomentar, não adquirir. A fortaleza é dom do Espírito Santo. Ele a deu a todos os batizados. Todos temos essa força sobrenatural. Resta-nos saber como fomentá-la.

Em primeiro lugar, devemos acostumar-nos ao cumprimento exato do nosso dever, apesar de todas as repugnâncias (ao que faz sua parte, Deus não deixa de agir). Em segundo lugar, não devemos pedir a Deus que retire a nossa cruz, mas que nos dê força para carregá-la santamente. Em terceiro lugar, pratiquemos com valentia as mortificações voluntárias.

Vinde, Espírito Santo, e da terra toda a face renovai! A face da terra precisa ser renovada; jamais o será se não formos corajosos, se não assumirmos nossa missão neste mundo, se não lutarmos contra o mundo, se não formos nós os santos que devemos ser. Nós temos forças, meus amigos! Temos o dom do Espírito Santo.

Neste Pentecostes, rezemos com confiança e súplica ardente ao Santo Espírito, para que nos faça agir divinamente, com força e valentia, neste mundo onde é cada vez mais difícil amar a Deus.