O mundo nunca mais será uma ruína completa e isso graças aos santos

Sermão

Sermão para a festa de Todos os Santos


Padre Lucas Altmayer, 22/10/2026 14:05

Eis algo que repetimos com muita facilidade quando olhamos para o mundo em que vivemos: nunca estivemos tão mal. Olhamos para a destruição das famílias, para a imoralidade que se tornou pública, para a perda da fé, para a violência, para a confusão que entrou até mesmo na vida da Igreja, e concluímos que chegamos ao pior momento da história. Parece-nos que nenhuma sociedade foi tão decadente quanto a nossa e que nunca foi tão difícil permanecer católico e alcançar a santidade.

Mas isso não é verdade.

A história da humanidade conheceu épocas terríveis. Antes que a luz do Evangelho alcançasse tantos povos, existiram civilizações nas quais práticas que hoje nos causam horror estavam integradas à própria vida religiosa e social. Entre os astecas houve sacrifícios humanos em grande escala, inclusive sacrifícios de crianças em determinados cultos. Maias e incas conheceram também sacrifícios humanos em certos contextos religiosos, e entre os incas existia o capacocha, no qual crianças podiam ser oferecidas aos deuses. Em diferentes povos e épocas houve antropofagia ritual. O mundo antigo conheceu a exposição de recém-nascidos, formas brutais de escravidão e inúmeras crueldades que nos fazem compreender até onde pode chegar o homem quando sua natureza ferida pelo pecado se afasta da luz do verdadeiro Deus.

Não foi a modernidade que inventou a maldade humana. O pecado é muito mais antigo do que ela, apesar de que hoje revivemos muitas das atrocidades das sociedades dos costumes mais atrozes.

Há, contudo, alguma coisa que mudou definitivamente a história. Em determinado momento, Deus entrou nela. O Verbo se fez carne e habitou entre nós. Jesus Cristo morreu sobre a Cruz, ressuscitou e fundou sua Igreja. Desde então, começou a acontecer no meio deste mundo uma coisa extraordinária: em qualquer terreno, mesmo naquele que parece completamente devastado pelo pecado, Deus é capaz de fazer nascer a santidade.

E é exatamente isso que celebramos hoje.

A festa de Todos os Santos não é simplesmente a comemoração de homens e mulheres que tiveram a felicidade de viver em épocas melhores do que a nossa. Muitos deles viveram em tempos terríveis. Alguns conheceram perseguições, outros viram civilizações desmoronarem diante de seus olhos. Houve santos que viveram em épocas de profunda corrupção moral e outros atravessaram graves crises dentro da própria Igreja. E, no entanto, tornaram-se santos.

Os santos não precisam de uma época santa para se tornarem santos. Esta é uma verdade muito importante para nós, porque existe um modo de denunciar os males de nosso tempo que pode terminar transformando-se numa desculpa para nossa própria mediocridade. Podemos falar tanto da crise, da decadência e da corrupção do mundo que acabamos persuadidos de que hoje é praticamente impossível viver aquilo que os santos viveram.

Não é impossível, é difícil e sempre foi difícil.

São Bento viu diante de si um mundo romano que se desfazia. Ele poderia ter passado sua vida lamentando a destruição de uma civilização. Em vez disso, procurou Deus e sua santidade ajudou a preparar uma civilização nova. São João Bosco viveu num século marcado por revoluções, anticlericalismo e profundas transformações sociais. Não esperou que a sociedade se tornasse perfeita para começar a salvar almas. Santa Teresinha viveu numa França que já conhecia profundamente a descristianização moderna e, dentro daquele mundo, tornou-se uma das maiores santas da Igreja. Padre Pio atravessou o século XX, conheceu o tempo de duas guerras mundiais e viu crescer ideologias que desejavam construir um mundo sem Deus. Nada disso conseguiu impedir a obra da graça em sua alma.

O mundo moderno produziu muita lama. Mas dentro desse mesmo mundo floresceu Santa Teresinha. O século XX conheceu horrores que dificilmente conseguimos contemplar e, nesse mesmo século, Padre Pio ajoelhou-se diante de um altar. A sociedade podia afastar-se de Deus mas Deus continuava fazendo santos dentro dela.

E isso deve mudar a maneira como olhamos para a época em que vivemos. 

Porque existe um pessimismo que parece muito católico, mas não é. Ele fala constantemente da força do mal, contempla sem cessar o avanço do pecado e termina esquecendo-se da força da graça. Conhece perfeitamente tudo aquilo que o demônio está fazendo no mundo, mas parece já não esperar grandes coisas daquilo que Deus ainda pode fazer nas almas.

Nós não podemos pensar assim.

A crise que atravessamos é grave. Existem pecados que adquiriram uma facilidade de acesso que outras gerações jamais conheceram. Uma criança pode encontrar dentro de sua própria casa coisas que, em outros tempos, um homem teria dificuldade de procurar. A autoridade da família é combatida. A pureza é ridicularizada. A religião é frequentemente tratada como um resíduo de épocas superadas. Até entre os católicos existe confusão sobre verdades que nossos antepassados aprendiam quando crianças.

Tudo isso é real. Mas nada disso torna impotente o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se acreditássemos que nossa época se tornou tão ruim que já não pode produzir grandes santos, estaríamos atribuindo ao pecado um poder que ele não possui. Estaríamos dizendo, na prática, que a sociedade conseguiu tornar-se mais poderosa do que a graça.

E a festa de hoje responde precisamente a esse desânimo.

São João nos diz no Apocalipse que viu diante do trono de Deus uma multidão tão grande que ninguém podia contar. Vinham de todas as nações, de todas as tribos, de todos os povos e de todas as línguas. Estavam vestidos de branco diante do Cordeiro. E quando se pergunta quem são eles, vem a resposta: são aqueles que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes no Sangue do Cordeiro.

Isso é extraordinário. São João não contempla uma multidão de homens que encontraram condições perfeitas para serem santos. Eles vieram da tribulação. Passaram pelo combate. Conheceram o sofrimento deste mundo e precisaram permanecer fiéis dentro dele. Suas vestes estão brancas porque foram lavadas no Sangue do Cordeiro.

A santidade cristã não nasce da perfeição da sociedade. Nasce da graça de Jesus Cristo acolhida e correspondida por uma alma.

Por isso, a pergunta que devemos fazer hoje não é se nossa época merece produzir santos. Nenhuma época merece. A pergunta é se permitiremos que Deus produza santos em nossa época através de nós.

Nós não escolhemos o século em que nasceríamos. Deus não nos colocou no século XIII. Não recebemos a sociedade de São Luís. Não recebemos o mundo de São Tomás de Aquino. Deus, em sua Providência, quis que nascêssemos neste tempo.

É neste mundo que precisamos chegar ao Céu.

É com estas tentações que teremos de combater. É dentro destas famílias que teremos de cumprir nossos deveres. É nesta crise da Igreja que teremos de conservar a fé. Não poderemos comparecer diante de Deus no dia do Juízo e explicar que teríamos sido santos se tivéssemos nascido quinhentos anos antes. A graça necessária para nossa santificação não ficou presa em outra época da história.

Deus sabia perfeitamente em que mundo viveríamos quando nos chamou à santidade.

E existe algo muito belo em pensar que, neste exato momento, podem estar vivendo entre nós alguns dos santos que as gerações futuras conhecerão.

Pode haver agora uma criança crescendo no meio desta sociedade que um dia será uma grande santa. Pode existir um jovem combatendo silenciosamente pela pureza enquanto seus amigos riem dele. Pode haver uma mãe que ninguém conhecerá, formando seus filhos na fé no meio de enormes dificuldades, cujo nome jamais será escrito num calendário litúrgico e que um dia estará naquela multidão que São João não conseguia contar. Pode existir um sacerdote atravessando fielmente a confusão de nosso tempo, trabalhando sem qualquer notoriedade, cujo nome desaparecerá rapidamente da memória dos homens e permanecerá eternamente conhecido por Deus.

É precisamente por isso que hoje celebramos Todos os Santos. Conhecemos os nomes de alguns milhares mas não conhecemos os nomes da multidão.

Não sabemos quem foram aquelas almas que viveram escondidas, cumpriram seus deveres, combateram seus pecados e morreram na amizade de Deus. Não tiveram basílicas construídas em sua honra. Não tiveram imagens colocadas sobre os altares. Ninguém escreveu suas biografias. Hoje, porém, a Igreja inteira celebra sua vitória.

Eles são as flores escondidas do jardim de Deus. 

E cada santo é uma prova de que o mundo não conseguiu vencer completamente.

O mundo não conseguiu vencer São João Bosco. A incredulidade de seu século não conseguiu arrancar a fé de Santa Teresinha. Os horrores do século XX não impediram Padre Pio de pertencer inteiramente a Deus. O mal estava presente, mas não conseguiu ocupar tudo. Havia ainda uma alma na qual Deus reinava.

É assim que os santos impedem que o mundo apodreça completamente.

Nosso Senhor chamou seus discípulos de sal da terra. O sal preserva aquilo que está sujeito à corrupção. Uma alma santa faz no mundo muito mais do que ela mesma percebe. Uma família verdadeiramente cristã impede que uma pequena parte do mundo pertença inteiramente ao espírito do mundo. Um jovem que conserva a pureza demonstra que a pureza continua possível. Um homem que permanece honesto quando poderia enriquecer pela desonestidade prova que o dinheiro ainda não comprou todas as consciências. Uma alma que reza demonstra que Deus ainda possui adoradores nesta terra.

É por isso que nossa época precisa tanto de santos.

Nós podemos escrever páginas inteiras contra os erros modernos. Podemos conhecer perfeitamente a história da crise da Igreja. Podemos identificar cada etapa da decadência da sociedade. Tudo isso pode ter sua utilidade. Mas nenhuma dessas coisas substituirá aquilo de que o mundo mais necessita: homens e mulheres que pertençam verdadeiramente a Deus. 

Os santos são a grande resposta de Deus às crises da história.

Quando uma época se torna escura, Deus acende luzes dentro dela. Quando a terra parece incapaz de produzir qualquer coisa bela, Ele faz nascer flores onde ninguém esperava encontrá-las. Não elimina imediatamente toda a lama ao redor, mas demonstra que a lama não possui a última palavra.

E agora chegou a nossa vez.

Daqui a séculos, se Deus permitir que a história deste mundo continue, outros católicos olharão para o nosso tempo. Lerão sobre nossos pecados, conhecerão nossas crises e se espantarão com algumas das coisas que nossa sociedade considerava normais. Que eles possam encontrar também nossos santos. 

Não fomos chamados a decidir se vivemos na pior época da história. Esse juízo não nos pertence. Fomos chamados a impedir que nossa época seja ainda pior pela ausência de nossa santidade.

E para isso não é necessário que nosso nome seja conhecido. A festa de hoje demonstra justamente o contrário. A imensa maioria daqueles que celebramos não possui imagem, igreja ou festa própria. O mundo esqueceu seus nomes. Deus não esqueceu nenhum deles.

No meio da lama de nossa época, Deus continua procurando uma terra onde possa fazer nascer flores, que encontre essa terra em nós.