O medo de morrer e o medo estar morto

Sermão

Sermão para a festa dos fiéis defuntos


Padre Lucas Altmayer, 22/10/2026 14:09

Vemos diante de nós um catafalco. Dentro dele não existe um corpo, mas é exatamente isso que ele quer colocar diante dos nossos olhos. Ele representa os nossos mortos, aqueles por quem oferecemos hoje o Santo Sacrifício da Missa, e representa também o lugar que um dia será ocupado por cada um de nós. A Igreja, no dia de Finados, não esconde a morte. Pelo contrário, obriga-nos a olhar para ela. E diante deste catafalco podemos distinguir duas coisas que parecem iguais, mas não são: o medo de morrer e o medo de estar morto.

Existe um medo da morte que nasce simplesmente de nossa natureza. O homem foi criado para viver, e a morte é uma violência introduzida pelo pecado, a separação da alma e do corpo que Deus criou unidos. Mas há também em nós um medo de morrer que cresce quando não estamos suficientemente conformados com a vontade de Deus. 

A preparação cristã para a morte exige, portanto, uma profunda conformidade com a vontade divina. Não sabemos quando morreremos, onde morreremos ou de que maneira Deus permitirá que aconteça. Podemos pedir uma boa morte, podemos pedir tempo para receber os últimos sacramentos e podemos prudentemente cuidar da nossa vida. Chegará, porém, um momento em que já não haverá nada a escolher. A morte será a última grande ocasião nesta vida de abandonarmo-nos inteiramente à Providência. O medo natural poderá permanecer. A alma, porém, terá aprendido durante a vida a dizer aquilo que deverá dizer na hora derradeira: “Seja feita a vossa vontade.”

Mas existe outro medo, e esse precisa ser combatido ainda mais profundamente. É o medo de estar morto. Não o medo da passagem, mas o medo daquilo que existe depois dela. Esse medo cresce sobretudo quando amamos excessivamente este mundo. Quanto mais construímos aqui a nossa felicidade, mais a morte parece uma catástrofe absoluta. Se nossa riqueza está aqui, a morte parece um ladrão. Se nosso coração pertence inteiramente às coisas que possuímos, aos prazeres que conhecemos e à vida que construímos, morrer significa perder tudo aquilo em que aprendemos a colocar nossa felicidade. O medo de estar morto revela, muitas vezes, quanto ainda estamos vivos demais para este mundo.

É aqui que uma imagem da Sagrada Escritura pode ajudar-nos. A morte se parece muito com a travessia do Jordão.

Durante quarenta anos, Israel caminhou pelo deserto em direção à Terra Prometida. Eles sabiam que aquela terra existia. Deus lhes havia prometido. Sabiam que era boa. Tinham ouvido falar de sua abundância. Mas chegou o momento em que precisaram parar diante de um rio. A promessa estava do outro lado, e para possuí-la era necessário atravessar.

Há algo de semelhante em nossa situação. Conhecemos esta margem. Do outro lado, conhecemos pela fé. Sabemos que existe uma pátria, mas ainda não a vimos. Sabemos que fomos criados para a visão de Deus, mas nenhum de nós conhece por experiência aquilo que significa contemplá-lo face a face. E entre aquilo que conhecemos agora e aquilo que esperamos existe um Jordão que todos teremos de atravessar.

Quando os israelitas chegaram diante do rio, aconteceu algo extraordinário. A Arca da Aliança entrou primeiro nas águas. Os sacerdotes que a carregavam avançaram e o povo atravessou depois. O caminho foi aberto diante deles. Para nós, existe uma realidade infinitamente maior: Jesus Cristo entrou primeiro na morte. O Filho de Deus quis atravessar aquilo que nos causa medo. Seu corpo esteve realmente morto e foi colocado num sepulcro. Depois ressuscitou. Por isso, quando chegarmos ao nosso Jordão, não estaremos entrando num caminho que Nosso Senhor desconheça. Aquele que nos manda atravessar já atravessou antes de nós.

Esta é a nossa grande esperança diante da morte: Jesus Cristo. Não nossos sentimentos, nem uma vaga expectativa de que tudo acabará bem. Nossa esperança está em Cristo e em seus merecimentos. Ele morreu por nós, satisfez por nossos pecados e abriu-nos novamente o acesso à vida eterna. Tudo aquilo que esperamos depois da morte está fundado nEle. O cristão olha para a outra margem sabendo que seu Salvador já entrou na verdadeira Terra Prometida e que é pelos méritos dEle que espera um dia chegar também.

A travessia do Jordão, contudo, não significou que Israel tivesse terminado todo combate. O povo atravessou o rio e entrou realmente na terra que Deus lhe havia prometido, mas ainda havia uma purificação da posse. Havia inimigos a combater e consequências das infidelidades do próprio povo. Mais tarde, quando Israel se esquecia de Deus e se entregava à idolatria, o Senhor permitia que povos estrangeiros o subjugassem. Aquela terra continuava sendo a terra da promessa, mas o povo experimentava dolorosamente as consequências de ter colocado as criaturas no lugar do Criador.

Essa imagem nos ajuda a compreender, guardadas as devidas diferenças, uma verdade muito importante no dia de Finados: o Purgatório. Uma alma pode morrer na amizade de Deus e, portanto, destinada infalivelmente ao Céu, conservando ainda dívidas de pena temporal e desordens que precisam ser purificadas. O pecado pode ter sido perdoado quanto à culpa, enquanto permanecem consequências que a justiça divina exige que sejam reparadas. E uma das raízes dessas desordens é justamente aquilo sobre o que precisamos meditar diante deste catafalco: nosso apego desordenado às coisas deste mundo.

Passamos a vida criando raízes aqui. Gostamos de possuir e temos dificuldade de perder. Sofremos quando nossa vontade é contrariada. Procuramos satisfações que nos fazem esquecer o fim para o qual fomos criados. As coisas deste mundo são boas enquanto permanecem no lugar que Deus lhes deu, mas tornam-se perigosas quando nosso coração começa a tratá-las como se fossem o bem definitivo. Esse mundanismo pode existir até numa pessoa exteriormente religiosa. Podemos rezar, frequentar a Missa e continuar interiormente agarrados a esta vida de uma maneira que não corresponde a quem espera outra pátria.

O Purgatório manifesta de maneira terrível e misericordiosa a necessidade de que tudo isso seja finalmente colocado em ordem. Terrível, porque há verdadeiro castigo. As penas do Purgatório não são uma figura de linguagem. A justiça de Deus purifica aquilo que não foi suficientemente purificado nesta vida. Misericordiosa, porque a alma que ali se encontra está salva. Já não existe o perigo do inferno para ela. Existe sofrimento, mas existe também uma esperança absolutamente segura de que chegará o momento em que toda pena terá terminado e aquela alma verá a Deus.

Por isso o Purgatório deve mudar nossa maneira de viver agora. Se somos tão apegados a este mundo, comecemos a desprender-nos dele enquanto ainda podemos fazê-lo meritoriamente. Se existem penas devidas aos nossos pecados, procuremos satisfazer por elas nesta vida. Aceitemos as contrariedades permitidas pela Providência com espírito de penitência. Usemos bem as indulgências que a Igreja coloca à nossa disposição. Sobretudo, aprendamos a amar a Deus de tal maneira que as criaturas voltem a ocupar o lugar que lhes pertence. Quanto menos o coração estiver preso a esta margem, menos terrível será ouvir que chegou a hora de atravessar o rio.

E é precisamente por causa do Purgatório que hoje este catafalco não é apenas uma lembrança de nossa própria morte. Ele representa aqueles que já atravessaram.

Algumas dessas almas podem estar esperando nossa ajuda. Enquanto viviam, sentaram-se conosco à mesa, falaram conosco e receberam nosso afeto. Agora já não podem voltar para reparar aquilo que deixaram de reparar. O tempo do mérito terminou para elas. Nós, porém, podemos ajudá-las. É por isso que a Igreja oferece Missas pelos mortos. É por isso que rezamos por eles, procuramos indulgências e oferecemos sufrágios. O amor cristão não termina diante de um túmulo. A morte tira dos nossos olhos aqueles que amamos, mas não rompe a comunhão sobrenatural que existe no Corpo Místico de Cristo.

É muito fácil dizer depois da morte de alguém: “Ele está num lugar melhor.” A Igreja é mais séria e, ao mesmo tempo, mais caridosa. Ela espera, mas reza. Confia na misericórdia de Deus e oferece sufrágios. Em vez de canonizar imediatamente nossos mortos, coloca diante de nós um catafalco e celebra por eles uma Missa. Esta é uma forma muito mais profunda de amá-los. Se já estão no Céu, nossas orações não se perdem; se ainda precisam de purificação, poucas coisas podemos fazer por eles que sejam tão preciosas quanto mandar celebrar e assistir devotamente ao Santo Sacrifício oferecido por suas almas.

E então voltamos à pergunta do início. Devemos ter medo da morte? Podemos ter medo de morrer. Existe algo profundamente humano no estremecimento diante da última passagem, e esse medo nos recorda quanto ainda precisamos crescer na conformidade com a vontade de Deus. O medo de estar morto é outra coisa. Quando ele nasce de nosso apego a este mundo, precisa ser vencido pela fé e pela esperança.

Um dia estaremos diante do Jordão. Tudo aquilo que hoje parece tão sólido ficará nesta margem. O catafalco nos diz isso sem pronunciar uma palavra. Nossa esperança, naquele momento, estará exatamente onde deveria ter estado durante toda a nossa vida: em Jesus Cristo. Ele conhece a outra margem. Ele atravessou a morte, ressuscitou e abriu para nós a verdadeira Terra Prometida. Se houver ainda alguma coisa em nós que precise ser purificada, a justiça misericordiosa de Deus terminará sua obra. E se vivermos unidos a Cristo e morrermos em sua amizade, chegará o dia em que não haverá mais rio para atravessar, nem purificação a sofrer, nem mundo ao qual permanecer apegado. Haverá finalmente a posse daquela pátria para a qual fomos criados.

Hoje, porém, olhemos para este catafalco e pensemos principalmente naqueles que já atravessaram. Eles precisam menos de nossas lágrimas do que de nossas orações.

Ofereçamos por eles esta Missa com verdadeira caridade. Que o Sangue de Cristo, derramado pela salvação dos homens e tornado presente sobre este altar, seja aplicado em sufrágio de suas almas. E que Nossa Senhora, a quem tantas vezes pedimos que rogue por nós “agora e na hora de nossa morte”, assista aqueles que ainda esperam a entrada plena na Terra Prometida e nos prepare também para o dia em que chegar a nossa vez de atravessar o Jordão.