O Inferno existe e a gente pode ir para lá

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 27/06/2026 18:47

Caríssimos fiéis,

Há palavras de Nosso Senhor que consolam a alma. Outras a enchem de esperança. Outras ainda parecem derramar sobre nós um bálsamo de misericórdia. Mas há também aquelas palavras que caem sobre a consciência como um trovão, despertando-nos da ilusão em que tantas vezes vivemos. O Evangelho de hoje termina com uma dessas sentenças solenes, que nenhum cristão pode ouvir sem estremecer: "De modo algum entrareis no Reino dos Céus."

Que frase terrível! Nosso Senhor não diz: "Talvez não entreis." Não diz: "Entrareis com maior dificuldade." Não diz sequer: "Será preciso esperar mais." A sentença é absoluta: "De modo algum entrareis." E estas palavras bastariam para destruir uma das maiores ilusões do nosso tempo: a ideia de que todos se salvam automaticamente, de que o inferno está vazio ou de que Deus, por ser misericordioso, acabará acolhendo indistintamente todos os homens no Céu.

Vivemos numa época em que quase ninguém acredita mais na possibilidade da condenação eterna. Fala-se muito da misericórdia de Deus, e devemos falar dela, porque ela é infinita, mas esquece-se de que foi precisamente Nosso Senhor Jesus Cristo, a própria Misericórdia encarnada, quem falou mais vezes sobre o inferno do que qualquer profeta do Antigo Testamento. E não o fez porque desejasse condenar os homens, mas porque desejava salvá-los. Quem avisa da existência de um precipício não o faz porque odeia os viajantes, mas porque deseja que cheguem vivos ao seu destino.

É preciso, portanto, repetir uma verdade que a Igreja jamais deixou de ensinar: é possível perder a salvação. É possível morrer privado da graça santificante. É possível ir para o inferno. Não porque Deus predestine alguém à condenação, isso seria contrário à Sua bondade infinita. Deus quer que todos os homens se salvem; Cristo morreu por todos; a graça é oferecida a todos. Mas Deus criou-nos livres, e a liberdade possui ao mesmo tempo uma dignidade e um risco: podemos corresponder ao Seu amor ou recusá-lo.

É justamente por isso que Nosso Senhor começa a Sua sentença com uma palavra tão pequena quanto decisiva: "Se..." Toda a eternidade parece depender desse pequeno monossílabo. Não há aqui uma condenação inevitável, mas também não há uma promessa incondicional de salvação. Não estamos predestinados ao inferno; mas também não possuímos uma certeza absoluta do Céu. Existe uma condição. Existe uma resposta da nossa parte. Existe uma vida que deve corresponder à graça recebida.

E qual é essa condição? "Se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus..."

À primeira vista, essa exigência parece surpreendente. Afinal, aos olhos do povo judeu, os fariseus eram justamente os homens mais religiosos de Israel. Rezavam longamente, jejuavam com frequência, conheciam profundamente a Lei de Moisés e observavam um número incontável de prescrições. Como poderia alguém ultrapassar a justiça daqueles homens? A resposta está em todo o Evangelho. A justiça dos fariseus possuía dois grandes defeitos.

O primeiro era a hipocrisia. Nosso Senhor os acusa de colocarem sobre os ombros dos outros fardos que eles mesmos não carregavam. Exigiam uma santidade que não viviam, ostentavam uma virtude que não possuíam, cultivavam uma religião de aparências. A Lei estava em seus lábios, mas não havia penetrado verdadeiramente em seus corações.

Também nós podemos cair na mesma armadilha. É possível conhecer perfeitamente a doutrina católica, frequentar a Santa Missa, rezar diariamente o Rosário, vestir-se com modéstia, defender a tradição da Igreja e, ainda assim, conservar um coração cheio de orgulho, de impaciência, de dureza, de falta de misericórdia. Existe uma ortodoxia apenas exterior, uma fidelidade apenas aparente, uma religião que permanece na superfície da vida. Nosso Senhor não veio fundar uma escola de aparências; veio transformar os corações.

O segundo defeito da justiça farisaica era ainda mais sutil. Os fariseus haviam cercado a Lei de Deus com uma infinidade de prescrições humanas. Aos poucos, confundiram os mandamentos divinos com tradições inventadas pelos homens. O essencial foi sendo obscurecido pelo acessório; aquilo que era meio passou a ocupar o lugar do fim.

Também este perigo permanece atual. Sempre que absolutizamos opiniões pessoais, costumes particulares ou preferências humanas, colocando-os no mesmo plano da Lei de Deus, corremos o risco de repetir o erro dos fariseus. Sempre que julgamos a santidade apenas pelas aparências, ou confundimos tradições legítimas com mandamentos divinos, aproximamo-nos daquela falsa justiça que Nosso Senhor condenou.

Mas, então, surge a grande pergunta do Evangelho: se a justiça dos fariseus não basta para entrar no Reino dos Céus, qual é a justiça que salva?

A resposta encontra-se na própria vida de Cristo e resume todo o Evangelho: existe uma única realidade capaz de ultrapassar verdadeiramente a justiça, e essa realidade é a caridade.

Não porque a caridade destrua a justiça, mas porque a leva à sua perfeição. A justiça dá a cada um aquilo que lhe é devido; a caridade vai além. A justiça manda cumprir os mandamentos; a caridade leva-nos a cumpri-los por amor.  A justiça respeita o próximo; a caridade entrega-se por ele. A justiça manda perdoar; a caridade faz amar aquele que nos ofendeu.

Por isso São Paulo afirma que a plenitude da Lei é a caridade. Quem ama verdadeiramente já não pergunta apenas: "Até onde sou obrigado?" Pergunta antes: "Até onde posso amar?" E aqui está toda a diferença entre o fariseu e o santo.

O fariseu procura descobrir o limite mínimo para permanecer em paz com a própria consciência. O santo procura oferecer o máximo por amor de Deus. O fariseu pergunta: "Qual é o mínimo que devo fazer para não pecar?" O santo pergunta: "O que posso fazer para agradar mais a Nosso Senhor?" O fariseu conta regras. O santo conta oportunidades de amar.

Eis a justiça que ultrapassa a dos fariseus. Não uma justiça menor, não uma justiça negligente, mas uma justiça elevada à sua plenitude pela caridade. A caridade jamais relativiza os mandamentos; pelo contrário, cumpre-os de maneira perfeita.

Caríssimos, talvez a resolução prática deste domingo seja muito simples e, ao mesmo tempo, profundamente exigente. Deixemos de perguntar apenas: "Isto é pecado?" e comecemos a perguntar: "Isto agrada a Deus?" Há muitas coisas que talvez não sejam pecaminosas, mas também não são expressão de amor. Há atitudes que talvez não nos afastem de Deus, mas tampouco nos aproximam d'Ele. A vida cristã não consiste em passar pela existência procurando apenas não perder o Céu; consiste em caminhar para o Céu aprendendo a amar.

Façamos, pois, um propósito concreto. Diante de cada decisão importante, perguntemo-nos não apenas o que é permitido, mas o que mais glorifica a Deus. Não apenas o que é lícito, mas o que manifesta um amor maior. Porque a justiça abre o caminho, mas é a caridade que nos conduz até o fim.

Caríssimos, no dia do nosso juízo, Deus não nos perguntará simplesmente quantas regras conhecíamos, quantas discussões vencemos ou quantos costumes defendemos. Perguntar-nos-á se O amávamos. Porque a única justiça que atravessa as portas do Céu é a justiça transformada em caridade.

Somente quem ama entra no Reino dos Céus. Quem não ama permanece fora dele. Ou, para não usar outras palavras senão as do nosso doce Salvador: "De modo algum entrará no Reino dos Céus.”