Padre Lucas Altmayer, 21/07/2026 07:41
Há Evangelhos que nos parecem difíceis porque Nosso Senhor utiliza palavras que, à primeira vista, nos surpreendem. Um deles é justamente o que a Igreja nos apresenta neste domingo. Depois da parábola do administrador infiel, Cristo conclui dizendo: "Fazei para vós amigos com as riquezas da iniquidade." Ora, por que chama Ele o dinheiro de "riqueza da iniquidade"? Acaso possuir bens é um pecado? A Igreja jamais ensinou isso. O dinheiro não é mau. O ouro não peca. As moedas não ofendem a Deus. Uma nota de dinheiro não possui vontade própria para fazer o bem ou o mal. A iniquidade nunca esteve nas coisas; ela sempre esteve no coração do homem.
Nosso Senhor chama as riquezas de "riquezas da iniquidade" porque elas pertencem a este mundo marcado pelo pecado e porque possuem uma extraordinária capacidade de prender o nosso coração às coisas passageiras. Não é o dinheiro que nos afasta de Deus. É o apego ao dinheiro. Não é a casa que nos condena. É viver como se ela fosse a nossa morada definitiva. Não é o trabalho que nos faz perder o Céu. É transformar o trabalho no único sentido da vida. Não são os bens que escravizam o homem; é o coração que se deixa escravizar por eles.
Por isso, este Evangelho não é propriamente um sermão sobre dinheiro. É um sermão sobre o coração.
Nosso Senhor já havia ensinado isso em outra ocasião, quando disse: "Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração." É interessante notar que Ele não disse: "Onde está o teu dinheiro." Disse: "Onde está o teu tesouro." Porque o tesouro de um homem pode não ser o dinheiro. Pode ser a própria reputação, pode ser o sucesso profissional, pode ser um cargo, pode ser um automóvel, pode ser uma casa, pode ser um relacionamento, pode ser até uma opinião da qual não consegue abrir mão. Tesouro é tudo aquilo cuja perda nos parece insuportável.
Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes que um cristão possa fazer a si mesmo: o que é mais difícil para mim perder? Porque a resposta revelará imediatamente onde está o meu coração.
É por isso que digo que o dinheiro é o espelho do coração.
Não porque revele quanto possuímos, mas porque revela aquilo que verdadeiramente amamos. Basta observarmos onde empregamos nosso dinheiro, nosso tempo, nossas preocupações, nossas energias e nossos pensamentos. Sempre investimos naquilo que julgamos mais importante. Sempre sacrificamos por aquilo que amamos. O coração termina aparecendo inevitavelmente na maneira como administramos tudo aquilo que Deus colocou em nossas mãos.
É justamente aqui que muitos compreendem mal o Evangelho. Há quem pense que o cristão deva amar o dinheiro, como se a prosperidade fosse sinal da bênção divina. Outros imaginam o contrário, como se fosse necessário desprezar toda riqueza e considerar pecado qualquer bem material. Nosso Senhor não ensina nem uma coisa nem outra. Ele não manda amar o dinheiro e não manda odiá-lo. Manda fazer dele um amigo.
E um amigo serve, não governa, não domina, não escraviza.
O dinheiro deve servir ao homem; jamais o homem deve servir ao dinheiro. Quando ele ocupa o lugar de senhor, deixa imediatamente de ser amigo. E Cristo já nos advertiu claramente: ninguém pode servir a dois senhores.
Mas também aqui precisamos compreender corretamente o ensinamento de Nosso Senhor. A pobreza cristã nunca significou simplesmente possuir pouco. Houve santos que nada possuíam e continuavam profundamente apegados às coisas deste mundo. Houve reis, empresários e homens muito ricos que viveram uma admirável pobreza de espírito.
A verdadeira pobreza não consiste em não possuir bens, consiste em não ser possuído por eles. O pobre segundo o Evangelho é aquele cujo coração permanece livre, e livre até mesmo para deixar tudo, se Deus assim o pedir.
Nunca esquecerei um episódio que ilustra muito bem esta verdade. Certa vez precisei ajudar alguns religiosos de espiritualidade franciscana que haviam entrado em conflito por causa de um simples par de chinelos. Era praticamente o único bem material que possuíam e, no entanto, discutiam por ele como se estivessem disputando um grande patrimônio. Naquele momento compreendi, mais uma vez, que o demônio nunca pergunta quanto vale um objeto. Pergunta apenas quanto ele vale para o nosso coração. Pode ser um castelo, pode ser um automóvel, pode ser um celular, pode ser um cargo, ou pode ser um simples par de chinelos. Pouco importa.
Qualquer coisa pode transformar-se num ídolo quando ocupa o lugar que pertence somente a Deus.
É precisamente por isso que São Paulo nos convida a viver neste mundo como quem não possui nada, ainda que possua muitas coisas. O cristão utiliza os bens sem permitir que os bens o utilizem. Trabalha, economiza, administra, cuida da família, constrói sua casa, exerce sua profissão com responsabilidade, mas sabe que tudo isso passa. Nada disso constitui sua verdadeira riqueza. Tudo isso lhe foi apenas confiado por algum tempo. A única riqueza que jamais poderá ser perdida é a vida eterna. As traças não a corroem, a ferrugem não a destrói, os ladrões não a roubam e a morte não a leva. Tudo o mais ficará para trás.
Talvez exista uma oração que agrade de modo especial ao Coração de Deus, justamente porque manifesta uma alma verdadeiramente livre. É uma oração simples, mas de uma profundidade imensa: "Senhor, não me deis nada que me faça perder o Céu." Creio sinceramente que poucas súplicas são tão agradáveis a Deus quanto esta.
Porque nós costumamos pedir sucesso, prosperidade, saúde, conforto e segurança. Deus, porém, olha mais longe. Ele vê a eternidade. Quantas vezes talvez não nos conceda exatamente aquilo que desejamos porque ama mais a nossa salvação do que a nossa comodidade! Quantas vezes uma cruz preserva uma alma que uma prosperidade desordenada acabaria perdendo! Quantas vezes uma privação guarda um coração que a abundância tornaria escravo!
Façamos, portanto, uma resolução muito concreta. Quando voltarmos para casa hoje, olhemos demoradamente para tudo aquilo que possuímos. Nossa casa, nosso trabalho, nosso automóvel, nosso telefone, nossas economias, nossos projetos e até mesmo as pequenas coisas das quais gostamos. Não para calcular quanto valem, mas para perguntar sinceramente quanto ocupam do nosso coração. Perguntemo-nos, diante de cada uma delas: "Se Deus me pedisse isto hoje, eu conseguiria entregar-Lhe em paz?" Porque é essa resposta que revela onde está o nosso verdadeiro tesouro.
No fim da vida, Deus não nos perguntará quanto dinheiro acumulamos, quantos bens possuímos ou quanto patrimônio deixamos. Perguntará apenas onde estava o nosso coração. Porque Nosso Senhor nunca disse: "Onde está o teu dinheiro, aí estará também o teu coração." Disse: "Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração."
E talvez seja exatamente por isso que o Evangelho chama as riquezas de "riquezas da iniquidade". Não porque o dinheiro seja mau, mas porque ele revela aquilo que tantas vezes procuramos esconder: os nossos apegos.
No fim das contas, caríssimos, o dinheiro nunca foi o verdadeiro problema. O problema sempre foi o coração. Porque o dinheiro é apenas um espelho. E o espelho nunca mente. O dinheiro é o espelho do coração.