Padre Lucas Altmayer, 09/10/2026 18:18
Há uma coisa muito interessante na festa que celebramos hoje: Nossa Senhora Aparecida, propriamente falando, não apareceu. Em Lourdes, Nossa Senhora apareceu a Santa Bernadette; em Fátima, apareceu aos três pastorinhos; no Brasil, porém, ela foi encontrada. E foi encontrada de uma maneira que parece estar em perfeita harmonia com toda a sua vida: escondida, pequena, no fundo das águas, por homens simples que lançavam suas redes. Aquela que hoje veneramos como Rainha e Padroeira do Brasil não se apresentou revestida de majestade, não apareceu diante de personagens importantes e não escolheu nada daquilo que o mundo consideraria grandioso; foi encontrada sob a forma de uma pequena imagem de barro, retirada das águas pelas redes de alguns pescadores.
Talvez exista nisso uma catequese muito profunda sobre Nossa Senhora, porque essa pequena imagem parece repetir aquilo que aconteceu durante toda a vida de Maria. Quando Deus decidiu entrar no mundo, não escolheu Roma nem um dos grandes centros do poder humano; escolheu Nazaré. Quando procurou aquela que seria a Mãe de seu Filho, não foi buscá-la entre as mulheres importantes aos olhos do mundo, mas encontrou uma jovem vivendo escondida numa pequena cidade. E quando o Anjo lhe anunciou que seria a Mãe do Messias, do Filho do Altíssimo, daquele cujo Reino não teria fim, Maria respondeu com palavras que resumem toda a sua vida: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Aqui encontramos uma das grandes diferenças entre a lógica de Deus e a lógica do mundo. Nós temos uma enorme necessidade de crescer, aparecer, ser reconhecidos e ocupar algum lugar diante dos outros; Nossa Senhora, ao contrário, aceita desaparecer para que Deus apareça. Nós temos medo de ser pequenos, enquanto Maria fez de sua pequenez o lugar onde Deus pôde realizar suas maiores maravilhas. Por isso, quando ela mesma explica no Magnificat aquilo que Deus fez em sua vida, diz: “Porque olhou para a humildade de sua serva; eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada.”
Essas palavras são muito importantes para entendermos corretamente a humildade cristã. Nossa Senhora não diz que não possui nada de extraordinário, nem finge ignorar aquilo que Deus realizou nela. Pelo contrário, ela sabe que todas as gerações a chamarão bem-aventurada, mas imediatamente acrescenta a razão: “Porque fez em mim grandes coisas aquele que é poderoso.” A humildade, portanto, não consiste em negar os dons que Deus nos concedeu, fingir que não temos qualidades ou considerar-nos inúteis. A verdadeira humildade consiste em enxergar a verdade: tudo aquilo que temos de bom recebemos de Deus, tudo aquilo que somos devemos a Ele, e se alguma coisa grande existe em nós, a glória pertence primeiramente Àquele que a realizou.
O orgulhoso recebe um dom de Deus e, pouco a pouco, termina olhando para si mesmo; o humilde recebe um dom de Deus e, através desse mesmo dom, continua olhando para Deus. Talvez seja por isso que Nossa Senhora tenha conseguido receber mais graças do que qualquer outra criatura sem jamais transformar essas graças em ocasião de orgulho: quanto mais Deus realizava nela, mais ela se reconhecia como serva. Quanto mais era elevada por Deus, mais profundamente se colocava diante dEle. Deus a escolhe para ser sua Mãe, e ela responde que é sua serva; Deus a enche de graça, e ela atribui ao Todo-Poderoso as maravilhas realizadas nela; todas as gerações a chamariam bem-aventurada, mas ela quer que todas as gerações saibam que santo é o nome dEle.
Isso toca numa ferida muito concreta de nossa vida espiritual, porque existe em nós uma necessidade quase constante de sermos reconhecidos. Muitas vezes não nos basta fazer o bem, queremos que saibam que fomos nós que o fizemos; não nos basta trabalhar, queremos que reconheçam nosso trabalho; não nos basta servir, esperamos agradecimento; não nos basta sofrer em silêncio, queremos que os outros percebam quanto sofremos. Às vezes, sequer nos basta estar certos: precisamos que a outra pessoa reconheça que estava errada e admita que nós tínhamos razão. E assim podemos passar uma parte enorme de nossa vida preocupados com o lugar que ocupamos na cabeça dos outros, perguntando o que pensaram de nós, por que não nos agradeceram, por que não reconheceram nosso esforço, por que escolheram outra pessoa, por que não fomos tratados como julgávamos merecer.
Talvez uma das maiores escravidões de nossa vida seja justamente esta: precisar ocupar um lugar importante na cabeça dos outros. E quanto sofrimento nasce daí! Uma palavra de elogio nos deixa felizes; uma crítica nos destrói. Um reconhecimento nos anima; sermos esquecidos nos amarga. Fazemos uma boa obra e, se ninguém percebe, parece que ela perdeu uma parte do valor. Isso revela quanto ainda fazemos certas coisas não somente para Deus, mas também para aquela pequena recompensa que esperamos receber dos homens.
Nossa Senhora nos ensina exatamente o contrário. Grande parte de sua vida transcorreu escondida. Depois dos acontecimentos da infância de Nosso Senhor, quantos anos de silêncio existem no Evangelho! Anos em Nazaré, vivendo uma vida exteriormente comum, cumprindo os deveres cotidianos, trabalhando, rezando, servindo a Deus sem que o mundo soubesse o que estava acontecendo naquela casa. A maior das criaturas viveu uma existência que, durante muitos anos, não chamou a atenção de praticamente ninguém. E, no entanto, enquanto o mundo ignorava Nazaré, ali se realizava uma das obras mais extraordinárias da história da salvação.
Isso deveria consolar também aqueles que olham para a própria vida e pensam que ela é pequena demais. Talvez sua vida consista em levantar cedo, trabalhar, voltar para casa e recomeçar no dia seguinte; talvez consista em uma mãe cuidar dos filhos, repetir todos os dias os mesmos trabalhos e enfrentar as mesmas dificuldades; talvez consista em suportar pacientemente uma doença, cuidar de alguém, combater um defeito que ninguém conhece ou permanecer fiel a uma oração que ninguém vê. E podemos cair na tentação de imaginar que uma vida assim possui pouco valor porque nela não acontece nada de extraordinário.
Mas Nossa Senhora Aparecida nos recorda que Deus não precisa de coisas exteriormente grandes para realizar coisas verdadeiramente grandes. Uma pequena imagem de barro, encontrada no fundo de um rio, tornou-se um sinal religioso conhecido por um país inteiro. E isso corresponde perfeitamente à maneira como Deus costuma agir: Ele gosta de tomar aquilo que o mundo considera pequeno e fazer aparecer ali a força de sua graça.
Talvez, portanto, o nosso problema não seja sermos pequenos; o nosso problema é não aceitarmos ser pequenos. Gostaríamos de realizar grandes coisas por Deus, mas temos dificuldade de realizar bem as pequenas coisas que Ele nos pede todos os dias.
Talvez imaginemos que seríamos capazes de dar a vida por Nosso Senhor, mas uma pequena contrariedade já nos tira a paz; talvez estejamos dispostos a fazer grandes sacrifícios, desde que sejam os sacrifícios escolhidos por nós, enquanto reclamamos daqueles pequenos sacrifícios que a Providência coloca diariamente em nosso caminho. É muito fácil imaginar uma fidelidade heroica numa circunstância extraordinária; muito mais difícil é ser fiel durante anos em coisas pequenas que ninguém vê.
A santidade, porém, é construída principalmente aí. Deus não nos perguntará quantas pessoas perceberam aquilo que fizemos, mas com quanto amor e fidelidade cumprimos aquilo que Ele nos confiou. Existem atos escondidos que talvez ninguém conheça nesta vida, mas que são perfeitamente conhecidos por Deus. Existe uma mãe que ninguém aplaude, mas que Deus vê; existe um pai que suporta silenciosamente o peso de suas responsabilidades e que Deus vê; existe uma alma que combate uma tentação durante anos e que Deus vê; existe uma pessoa que perdoa sem receber pedido de desculpas e que Deus vê; existem pequenas renúncias, pequenas mortificações, pequenas fidelidades que jamais aparecerão diante dos homens, mas que não ficam escondidas aos olhos de Deus.
E talvez seja justamente essa a grande lição daquela pequena imagem de Nossa Senhora. Hoje nós a vemos coroada e revestida como Rainha, mas tudo começou com algo pequeno e escondido. Deus parece ter colocado diante dos olhos do Brasil uma catequese silenciosa sobre a humildade: aquela que é Rainha não precisou procurar um trono; aquela que seria conhecida por tantas gerações não precisou lutar para construir o próprio nome; aquela que seria exaltada acima das criaturas passou a vida chamando a si mesma de serva.
Por isso, nesta festa, talvez devamos pedir a Nossa Senhora Aparecida uma graça muito concreta: não simplesmente a graça de sermos pequenos, porque pequenos já somos, mas a graça muito mais difícil de aceitar nossa pequenez diante de Deus. Peçamos a graça de fazer o bem quando ninguém percebe, de servir sem exigir agradecimento, de cumprir nosso dever sem depender de elogios, de aceitar que outras pessoas sejam reconhecidas, de não precisar vencer todas as discussões e, sobretudo, de não transformar os dons que Deus nos deu em instrumentos para buscar nossa própria glória.
E existe uma maneira muito simples de saber se estamos aprendendo essa humildade de Nossa Senhora: perguntar quem aparece mais em nossa vida, nós mesmos ou Nosso Senhor. Porque Maria nunca quis ser o termo último da devoção que lhe prestamos. Em Caná, ela não disse aos servos que olhassem para ela, mas apontou para Cristo e pronunciou uma frase que resume toda a verdadeira devoção mariana: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Essa é a grandeza de Maria: quanto mais nos aproximamos verdadeiramente dela, mais ela nos faz olhar para seu Filho.
Quando contemplarmos, portanto, a pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida e sairmos com ela em procissão logo mais, talvez devamos nos fazer uma pergunta: por que Deus escolheu algo tão pequeno para recordar ao Brasil aquela que é a maior de todas as criaturas? Talvez porque precisássemos aprender justamente isto: Deus não tem dificuldade alguma para realizar coisas grandes com instrumentos pequenos; a dificuldade começa quando o instrumento quer ocupar o lugar daquele que o utiliza.
Nossa Senhora aceitou ser pequena nas mãos de Deus, e Deus fez nela coisas grandes. Aceitou ser serva, e Deus a fez Rainha. Viveu escondida, e todas as gerações a chamam bem-aventurada. Não procurou construir o próprio nome, mas proclamou que santo é o nome de Deus.
Peçamos, então, a Nossa Senhora Aparecida que nos ensine a mesma liberdade: que não precisemos aparecer, que não dependamos do reconhecimento dos homens e que não tenhamos medo de uma vida escondida e fiel. Nossa Senhora não precisou fazer-se grande. Ela simplesmente se colocou inteiramente nas mãos de Deus. E foi Deus quem fez nela coisas grandes.