Não devemos nos prender aos consolos: descer o tabor e subir o calvário

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 12:15

Acabamos de ouvir o Evangelho que nos narra o momento em que Nosso Senhor se transfigura diante dos seus discípulos. Ao transfigurar-se, Nosso amado Salvador muda de aspecto diante de Pedro e João. Do seu rosto sai uma grande luz, suas vestes se tornam brancas como a neve, e a glória de Deus se manifesta na humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Conseguem, caros fiéis, imaginar como Pedro e João deveriam estar ao ver Nosso Senhor se transfigurar diante deles? Tão maravilhados estavam que Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos construir tendas e permanecer aqui.” Era tão bom estar com Nosso Senhor que os discípulos não queriam mais voltar à vida normal.

Mas era preciso descer do Tabor.

E para onde iriam depois de descerem o monte? Iriam em direção ao Calvário. Nosso Senhor desceu o Tabor para subir ao Calvário.

E nós sabemos bem, meus amigos, que a cena do Calvário é bem diferente da cena do Tabor. No Tabor, vemos o Cristo manifestando sua glória. Ouvimos a voz de Deus Pai dizendo: “Este é o meu Filho muito amado.” Vemos Nosso Senhor rodeado de discípulos que queriam estar com Ele naquele momento e permanecer para sempre.

E o que vemos no Calvário? Vemos o Cristo que sofre, pregado numa Cruz. Vemos Nosso Senhor abandonado por seus discípulos. Vemos Jesus Cristo proferir o grande grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” O Cristo glorioso do Tabor é, na Cruz, o Cristo sofredor.

E o que nos ensina tudo isso, meus caros fiéis?

Ensina-nos que, se não soubermos dar aos consolos o verdadeiro lugar que eles merecem em nossas vidas, nunca progrediremos em nossa amizade com Deus, em nosso caminho de santidade.

Por isso a Igreja coloca diante de nós, bem no início da Quaresma, o Evangelho que acabamos de ouvir. Mas também coloca diante de nós uma parte da epístola de São Paulo aos Tessalonicenses.

O Evangelho nos mostra que Deus, por vezes, e bem mais do que percebemos, nos envia muitos consolos. A epístola nos mostra que o consolo não é o fim da nossa vida espiritual, mas que ela consiste em outra coisa: nossa união com Deus por meio de nossa santificação.

Voluntas Dei, sanctificatio vestra. A vontade de Deus é a nossa santificação.

Só que, meus amigos, nós nunca seremos santos se vivermos de consolos.

Nossa santidade consiste em andar de um modo em que nos aperfeiçoemos cada vez mais, como nos ensina São Paulo na epístola de hoje.

E o que isso quer dizer?

Quer dizer, em primeiro lugar, abandonar nossos pecados.

Muitos aqui dizem que a Missa Tridentina foi um ponto de conversão. Foram atraídos por ela, pela coerência que dela vem, pela beleza, pelo canto, enfim, pelos consolos sensíveis que ela causa.

Mas nossa santidade não consiste em sermos convertidos pela beleza ou qualquer outro atributo da Missa Tridentina ou da Tradição Católica como um todo.

Portanto, muitas vezes, os consolos que a Missa Tridentina pode nos propor são uma tentação em nossa vida espiritual.

Nossa santidade, meus amigos, consiste em primeiro lugar em abandonar os nossos pecados. Se não o fizermos, nunca poderemos ser santos. Ou você abandona neste instante seu pecado e começa uma verdadeira e sincera vida de amizade com Deus, ou sua vida não fará sentido algum.

Abandonemos os consolos de Deus para achar o Deus de toda consolação.

E abandonar o pecado muitas vezes dói, não é fácil. Mas os consolos do mundo devem ser destruídos, e devemos buscar a Deus.

Por isso São Paulo nos diz hoje que nossa santidade consiste, em primeiro lugar, em abandonar nossas impurezas.

Meus amigos, quantos daqui frequentam a Missa Tridentina, se dizem católicos há tanto tempo, mas nunca se dispuseram a travar uma verdadeira luta contra a impureza, a favor da castidade? Quantos aqui abandonaram a luta pela santidade só porque é difícil e custa muito?

Muitos vivem dos falsos consolos: “Tenho uma participação ativa na Missa; frequento, canto, sirvo, tenho responsabilidades na Missa Tridentina, então pronto, eu não sou tão ruim assim.”

Mentalidade protestante, que nos faz pensar que nossos pecados podem ser encobertos por nossa fé.

Não. Nossos pecados devem ser perdoados na confissão, portanto, confessem.
Nossos pecados devem ter suas penas apagadas, portanto, façamos penitência, mudemos de vida e abandonemos as condições do homem velho que vivia em nós.

O que Deus espera de nós, meus amigos, é que sejamos santos, e não que vivamos de seus consolos.

Será que esta será, finalmente, a Quaresma da nossa conversão?
Será que chegou o momento em que abandonaremos os pecados que tão prontamente cometemos?

Em segundo lugar, para sermos santos devemos perseverar em nossos propósitos.

E aqui, os consolos podem ser uma tentação mais uma vez.

Nós até queremos ser santos, até travamos uma luta contra o pecado, mas vivemos cedendo.

Me confesso no domingo para poder comungar. A comunhão é um consolo, e que consolo! Mas no meio da semana percebo que a luta é difícil e volto aos consolos fétidos do pecado.

Me confesso para viajar, e viajar em estado de graça é um consolo. Mas caio no mesmo dia em que termino minha viagem.

Rezo para pedir graças e as recebo, e que belo consolo é ser atendido em nossas orações. Mas me revolto e me entristeço quando parece que Deus não age no tempo que eu desejo.

Na verdade, meus amigos, esses consolos nos prejudicam bem mais do que nos ajudam. E é próprio dos imaturos viver de consolos.

O que devemos é fazer o que deve ser feito, e não somente o que gostamos de fazer.

Fazer o que devemos, e não somente o que queremos, é o segredo da nossa perseverança.

Não vivamos de consolos, meus amigos. Não vivamos assim como Nosso Senhor não quis viver do Monte Tabor.

Nosso Senhor fez o que devia fazer: descer o Tabor e subir o Calvário.

A glória do Senhor foi bem maior depois da Cruz. Existe um consolo muito maior depois do sofrimento deste mundo que os consolos que degustamos aqui!

Identifiquemos os Tabor em nossas vidas e, no momento devido, saibamos descer, sem medo de que essa descida nos conduza ao Calvário.

Se Deus nos quis dar o Calvário, saibamos que nossa glória será muito maior do que aquela que teríamos recebido nos consolos do Tabor.