Padre Lucas Altmayer, 01/08/2026 22:37
Há um detalhe neste Evangelho que talvez passe despercebido numa primeira leitura, mas que encerra uma das maiores lições da vida espiritual. Nosso Senhor não compara um homem virtuoso com um grande criminoso. Compara dois homens que sobem ao mesmo Templo, na mesma hora, para fazer a mesma coisa: rezar. Ambos procuram Deus. Ambos acreditam n'Ele. Ambos estão diante do mesmo altar. E, no entanto, apenas um volta para casa justificado.
Por quê? A resposta parece simples: porque um era humilde e o outro orgulhoso. Mas talvez possamos ir ainda mais fundo. Como Deus faz um homem tornar-se humilde?
Nós costumamos pedir muitas graças em nossas orações. Pedimos saúde, pedimos paz, pedimos uma família santa, pedimos perseverança, pedimos santidade. Não raras vezes também pedimos humildade. Entretanto, quase nunca percebemos que Deus costuma conceder as virtudes por meio dos caminhos pelos quais elas nascem. Pedimos paciência, e Deus permite pessoas difíceis. Pedimos perseverança, e Deus permite provações. Pedimos desapego, e Deus permite perdas. Pedimos humildade... e Deus permite humilhações.
Talvez uma das maiores graças que Deus possa conceder a uma alma seja justamente uma humilhação.
Eu sei que isso parece estranho aos nossos ouvidos. Vivemos num mundo em que todos procuram reconhecimento, elogios, prestígio, aprovação. Sofremos quando somos esquecidos, quando somos criticados, quando alguém não reconhece o nosso esforço. No entanto, os santos descobriram uma verdade que nós ainda custamos a aprender: Deus não humilha uma alma porque deixou de amá-la. Muitas vezes permite a humilhação justamente porque a ama demais para deixá-la morrer de orgulho.
O orgulho é um pecado silencioso, ele cresce sem fazer barulho. Alimenta-se dos elogios, das comparações, das pequenas vitórias, da boa imagem que fazemos de nós mesmos. É um pecado particularmente perigoso porque consegue esconder-se até mesmo debaixo das virtudes. O fariseu jejuava, pagava o dízimo, rezava, cumpria a Lei. Exteriormente, sua vida era exemplar, mas havia dentro dele uma doença que nem ele mesmo enxergava. Estava cheio de si.
Sua oração revela isso de maneira impressionante. Ele não pede perdão, não pede graças, não implora misericórdia. Passa quase toda a oração falando de si mesmo: "Eu jejuo, eu pago o dízimo, eu não sou como os outros homens." Parece estar diante de Deus, mas, na verdade, contempla apenas a própria imagem. Seu coração já estava ocupado demais para que Deus pudesse entrar.
O publicano, ao contrário, chega ao Templo completamente diferente. Não ousa levantar os olhos. Bate no peito. Pronuncia apenas uma frase: "Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador." Por que essa diferença?
Talvez porque o publicano já conhecesse aquilo que o fariseu ainda ignorava: as humilhações.
Conhecia a vergonha da própria vida. Não precisava defender uma reputação. Não precisava convencer ninguém de que era bom. A humilhação já havia derrubado muitas das ilusões que o orgulho costuma construir dentro da alma.
Percebamos, entretanto, que não é a humilhação, por si mesma, que santifica. Há pessoas que são humilhadas e se tornam ainda mais orgulhosas. Há quem receba uma correção e passe a alimentar ressentimento. Há quem seja esquecido e viva amargurado. Há quem seja injustiçado e transforme a dor em revolta. A humilhação não salva ninguém. O que salva é acolhê-la das mãos de Deus.
O publicano poderia ter feito exatamente o que nós tantas vezes fazemos. Poderia ter explicado seus pecados, culpado as circunstâncias, comparado sua vida à do fariseu ou procurado justificar-se. Nada disso. Simplesmente reconheceu sua miséria e pediu misericórdia. É isso que transforma uma humilhação numa graça. Não é o sofrimento em si, mas a humildade que ele produz quando aceito com fé.
Caríssimos, talvez as maiores humilhações da nossa vida não venham dos nossos inimigos. Venham justamente daqueles que mais convivem conosco. Uma palavra dura do marido ou da esposa. Um filho que não reconhece os sacrifícios dos pais. Um chefe que ignora anos de dedicação. Uma crítica injusta. Uma calúnia. Um esquecimento. Uma ofensa que nunca foi reparada.
Quantas vezes perguntamos: "Senhor, por que permitistes isso?" Talvez porque Ele estivesse respondendo exatamente à oração que fizemos quando Lhe pedimos humildade.
Existe um sinal bastante seguro de que ainda somos muito orgulhosos. É a necessidade constante de nos justificarmos: queremos explicar tudo, defender tudo, responder imediatamente a toda crítica. Ter sempre a última palavra. Sofremos profundamente quando nossa imagem é atingida.
Nosso Senhor fez exatamente o contrário. Foi chamado de blasfemo, de impostor, de possesso, de beberrão. Foi escarnecido, cuspido, insultado e condenado injustamente. No entanto, entregou Sua honra nas mãos do Pai. Não porque fosse indiferente à verdade, mas porque amava mais a vontade de Deus do que a própria reputação.
Há almas que nunca crescem espiritualmente porque passam a vida inteira tentando proteger uma imagem que Deus justamente deseja purificar.
Os santos compreenderam isso muito cedo. Não procuravam humilhações por gosto de sofrer, nem faziam delas um espetáculo. Simplesmente acolhiam aquelas que Deus permitia. Sabiam que a cruz mais difícil de carregar nem sempre é a doença ou a pobreza. Muitas vezes é ver o próprio amor-próprio ferido. E justamente aí Deus realiza uma de Suas obras mais belas: vai destruindo pouco a pouco o homem velho para fazer nascer em nós os sentimentos de Cristo.
Façamos, portanto, uma resolução muito concreta. Nesta semana, quando Deus permitir alguma pequena humilhação, uma correção, uma crítica, um esquecimento, uma falta de reconhecimento, uma palavra injusta, não respondamos imediatamente. Antes de qualquer reação, façamos uma breve oração no silêncio do coração: "Senhor, se esta humilhação pode tornar-me mais humilde, eu a recebo das vossas mãos. Não permitais que eu desperdice esta graça."
Talvez essa simples oração transforme aquilo que parecia apenas uma contrariedade numa ocasião preciosa de santificação.
Caríssimos, o fariseu passou a vida inteira tentando parecer grande diante dos homens e terminou pequeno diante de Deus. O publicano aceitou permanecer pequeno diante de Deus e saiu verdadeiramente grande. Talvez, quando chegarmos ao Céu, descubramos que muitas das graças pelas quais mais agradeceremos não serão os elogios que recebemos, nem os sucessos que alcançamos, mas aquelas humilhações silenciosas que Deus permitiu para nos livrar do orgulho.
Porque os elogios muitas vezes alimentam o fariseu que existe dentro de nós. As humilhações, quando acolhidas com fé, ensinam-nos a rezar como o publicano. "Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador."