Não deixe que as distrações lhe impecam de perceber a visita de Deus

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 26/07/2026 21:07

Caríssimos fiéis,

O Evangelho deste domingo é um dos mais comoventes de toda a Sagrada Escritura. Nosso Senhor aproxima-Se de Jerusalém. Do alto do Monte das Oliveiras contempla a cidade santa, aquela cidade escolhida por Deus, onde estava o Templo, onde durante séculos se ofereceram sacrifícios, onde os profetas haviam pregado e onde tantas promessas divinas haviam sido pronunciadas. E, diante dela, acontece algo surpreendente: Jesus chora. É uma cena extraordinária: Deus chora. Não diante da Cruz, não diante dos açoites, não diante da coroa de espinhos, mas diante de uma cidade que  está prestes a perder a maior graça da sua história.

E por quê? Porque Jerusalém não reconheceu o tempo em que foi visitada. Talvez esta seja uma das frases mais tristes de todo o Evangelho: "Não reconheceste o tempo em que foste visitada."

Percebamos que Nosso Senhor não diz que Jerusalém nunca recebeu graças. Não diz que Deus a abandonou. Não diz que lhe faltaram profetas, milagres ou advertências. Ao contrário. Jerusalém foi talvez a cidade mais favorecida de toda a história da humanidade. Recebeu as promessas, recebeu os profetas, recebeu o culto verdadeiro e, finalmente, recebeu o próprio Filho de Deus caminhando pelas suas ruas.

Deus visitou Jerusalém, mas Jerusalém não percebeu. E este, caríssimos, talvez seja um dos maiores dramas da vida espiritual: não é apenas cometer pecados, é deixar passar as graças.

Nós costumamos pensar que a nossa vida depende das grandes decisões que tomaremos um dia. Mas Deus, ordinariamente, santifica as almas de outra maneira. Ele passa por elas inúmeras vezes, bate à porta discretamente, oferece pequenas graças, pequenos convites, pequenas inspirações, esperando apenas que a alma Lhe abra o coração. Toda a nossa vida é feita dessas visitas de Deus: uma Missa, uma confissão, um sermão que ouvimos, uma leitura espiritual, uma doença que nos faz refletir, uma amizade verdadeiramente cristã. O exemplo de uma pessoa santa, uma morte na família, um retiro, uma humilhação. Até mesmo uma cruz inesperada. Tudo isso pode ser uma visita de Deus.

Talvez imaginemos que Deus fala apenas através de milagres extraordinários. Mas, na verdade, Ele costuma bater muito baixinho. Sua voz quase nunca faz barulho. Ela pede silêncio, atenção e um coração disposto a escutá-La.

O problema não é que Deus deixe de visitar as almas, o problema é que as almas vivem distraídas. Vivemos ocupados demais para perceber Deus. Temos tempo para as notícias, para o celular, para as conversas e para as preocupações. Mas quantas graças passam diante de nós sem que sequer as percebamos!

Talvez a maior tragédia da vida seja a distração. Jerusalém não foi destruída porque Deus deixou de amá-la. Foi destruída porque não reconheceu o momento da visita de Deus. E isso deveria causar em nós um santo temor, porque também nós podemos deixar passar graças irrepetíveis. Há graças que Deus concede todos os dias, mas existem outras graças que talvez jamais se repitam: uma inspiração para abandonar um pecado, uma ocasião providencial de reconciliação, uma conversa que poderia mudar toda a nossa vida, uma confissão que adiamos, um chamado à vocação, uma decisão generosa.

Talvez Deus passe apenas uma vez por aquele caminho.

Não porque seja avaro em Sua misericórdia, mas porque a história da nossa vida também é feita de momentos únicos. Há ocasiões que nunca voltam. Há portas que permanecem abertas apenas por algum tempo. É por isso que Nosso Senhor chora: Ele sabe aquilo que Jerusalém ainda não sabe. Ela pensa estar apenas recusando um pregador e, na realidade, está recusando a própria salvação.

Quantas vezes também nós fazemos o mesmo: adiamos a conversão, adiamos a confissão, adiamos o perdão, adiamos a oração, adiamos aquela mudança de vida que sabemos ser necessária. E vamos repetindo para nós mesmos: amanhã. Depois. Quando eu tiver mais tempo. Quando resolver outros problemas. Quando envelhecer.

Como se Deus tivesse prometido visitar-nos novamente amanhã.

Mas Ele nunca prometeu isso. Prometeu apenas o hoje.

Talvez seja esta uma das maiores ilusões do demônio: convencer-nos de que sempre haverá outra oportunidade. Talvez haja, talvez não.

Jerusalém certamente pensava que teria outra oportunidade, e quarenta anos depois já não existia sequer o seu templo.

Caríssimos, Deus visita continuamente as almas, mas há uma diferença enorme entre visitar e permanecer. Ele respeita profundamente a nossa liberdade. Não arromba a porta do coração. Bate, espera, chama, ilumina e inspira. Depois continua Seu caminho.

A graça tem algo de delicado, ela não faz violência. É como um raio de sol que entra pela janela. Basta fechar as cortinas para que a luz desapareça. Não porque o sol tenha deixado de brilhar, mas porque nós recusamos a sua claridade.

Talvez seja por isso que tantos santos insistem tanto na fidelidade às pequenas inspirações. Uma pequena generosidade prepara outra maior. Uma pequena resposta dada hoje torna a alma mais dócil para a graça de amanhã. Deus costuma conduzir os santos passo a passo, visita após visita, fidelidade após fidelidade.

A santidade raramente nasce de um único grande heroísmo, nasce de centenas de pequenas graças acolhidas com amor.

Façamos, portanto, uma resolução muito simples neste domingo. Aprendamos a reconhecer as visitas de Deus. Não desprezemos uma boa inspiração. Não adiemos uma confissão. Não deixemos para amanhã uma oração que pode ser feita hoje. Não endureçamos o coração quando Deus nos pedir uma mudança concreta de vida. Façamos o propósito de responder prontamente às pequenas moções da graça, porque é nelas que Deus costuma preparar as grandes conversões.

Quando sairmos desta igreja, lembremo-nos de uma verdade que talvez nunca mais devamos esquecer: esta Missa pode ser uma visita de Deus. Este sermão pode ser uma visita de Deus. A graça que hoje toca o nosso coração talvez seja exatamente aquela que o Senhor preparava para transformar toda a nossa vida. Não sabemos quantas vezes 

Deus ainda nos visitará, mas sabemos que Ele nos visita hoje. E a maior tragédia seria que, ao passar, não O reconhecêssemos.