Padre Lucas Altmayer, 29/08/2026 08:51
A morte de São João Batista nos mostra uma das consequências mais terríveis do orgulho: a raiva que sentimos contra aqueles que nos corrigem.
João Batista não tinha feito mal a Herodes. Não lhe havia roubado nada, não o havia traído, não lhe desejava o mal. Pelo contrário, João dizia a verdade precisamente porque, como profeta de Deus, desejava que aquele homem abandonasse o pecado e se salvasse. Mas Herodes vivia numa situação que não podia ser justificada, e João repetia-lhe simplesmente: “Não te é permitido.”
E essa palavra tornou-se insuportável.
É curioso como frequentemente funciona o coração humano. Quando alguém nos acusa injustamente, naturalmente nos defendemos. Mas há uma raiva muito particular que sentimos quando alguém nos acusa justamente. Quando a correção toca precisamente naquele pecado que sabemos existir, quando alguém põe o dedo sobre a ferida que escondemos, quando uma palavra revela aquilo que gostaríamos de continuar ignorando, então muitas vezes não sentimos humildade, mas raiva.
Por quê? Porque o nosso orgulho sustenta os nossos pecados.
Muitas vezes, não conseguimos abandonar um pecado simplesmente porque seria necessário reconhecer que estávamos errados. E preferimos conservar o pecado a aceitar a humilhação de admitir: “Eu estava errado. Aquele que me corrigiu tinha razão.”
Por isso, quem nos corrige torna-se facilmente nosso inimigo. Não porque nos tenha feito mal, mas porque nos obriga a olhar para um mal que existe dentro de nós.
E este é o drama de Herodíades. João Batista não era seu verdadeiro inimigo. Seu verdadeiro inimigo era o pecado em que vivia. Mas, como não queria abandonar o pecado, começou a odiar aquele que o condenava. E, finalmente, quando surgiu a primeira oportunidade, quis destruir a voz que lhe dizia: “Não te é permitido.”
Este é o cúmulo do orgulho.
Não basta permanecer no pecado. Queremos também eliminar tudo aquilo que nos lembra que estamos pecando. Não basta não ouvir a correção. Queremos silenciar aquele que corrige. Não basta rejeitar a verdade. Queremos destruir aquele que a diz.
É o que acontece quando uma pessoa se irrita com o sacerdote que prega contra seu pecado, quando despreza os pais que lhe dão um conselho, quando se afasta de um amigo porque ele teve coragem de lhe dizer a verdade. Não é raro que alguém passe anos convivendo pacificamente com outra pessoa e, no momento em que recebe dela uma correção sincera, transforme-a imediatamente em inimiga.
O problema não era João Batista, o problema era Herodes. O problema não é necessariamente aquele que nos corrige. Muitas vezes, o problema está em nós.
Por isso, quando alguém nos corrigir, devemos tomar cuidado antes de nos irritarmos. Perguntemo-nos: por que esta palavra me deixou tão furioso? Será que fui injustiçado? Ou será que meu orgulho foi ferido? Será que odeio realmente aquela pessoa? Ou odeio aquilo que ela me obrigou a enxergar?
Talvez a raiva seja, muitas vezes, o grito de um orgulho que percebeu que foi descoberto.
Herodes e Herodíades poderiam ter feito algo maravilhoso quando ouviram João Batista. Poderiam ter se convertido. Poderiam ter agradecido a Deus por ter colocado diante deles um homem santo que ainda lhes dizia a verdade. Mas preferiram outra coisa: conservar o pecado e destruir o profeta.
Que isso nunca aconteça conosco.
Peçamos hoje a São João Batista a graça de amar aqueles que nos corrigem, sobretudo quando a correção é verdadeira. Que não procuremos imediatamente justificar-nos, defender-nos ou atacar aquele que nos chamou à atenção. Que tenhamos a humildade de reconhecer nossos pecados e de agradecer a Deus pelas pessoas que ainda têm coragem de nos dizer a verdade.
Porque talvez seja justamente aquela palavra que mais nos irrita que Deus esteja usando para nos salvar. E, quando alguém nos disser: “Não te é permitido”, não façamos como Herodes e Herodíades. Não procuremos cortar a cabeça de João Batista. Procuremos, antes, cortar o pecado que João Batista teve a coragem de denunciar.