Mulheres submissas. homens submissos. famílias submissas.

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 12:08

Neste santo dia em que a Igreja nos propõe à contemplação a Sagrada Família de Nazaré, somos convidados não apenas a admirá-la, mas sobretudo a imitá-la. Pois a Sagrada Família não é um ideal distante ou poético; ela é o modelo concreto, real e possível de toda família cristã.

Na Sagrada Família de Nazaré, cada um tinha uma missão própria, bem definida, assumida com fidelidade, humildade e amor. Não havia confusão de papéis, não havia competição, não havia individualismo. Havia ordem. E onde há ordem, há paz. Onde há paz, há Deus.

Hoje, porém, vivemos um tempo de profunda desordem familiar. As funções se confundem, as autoridades são rejeitadas, a obediência é ridicularizada, e o individualismo se tornou um ídolo. Por isso, contemplar a Sagrada Família é também receber um remédio para as feridas da família moderna.

       Quando contemplamos a Sagrada Família, percebemos que o motivo da paz que reinava nela era a submissão. Na verdade, quando pensamos em família deveríamos sempre pensar em submissão.

A Sagrada Família não foi um refúgio do improviso emocional, mas uma arquitetura familiar perfeita, sustentada por uma ordem objetiva: São José submete-se à vontade divina revelada no silêncio dos sonhos e se submete aos seus deveres de marido e pai adotivo; Nossa Senhora  submete-se livremente ao desígnio de Deus com um “faça-se” que não negocia condições e submete-se às ordens dadas por São José; o Menino Jesus, embora Senhor da história, submete-se ao tempo, à obediência e à autoridade legítima de seus pais. Diz o Evangelho de hoje: “E desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes submisso.”  Não há confusão de papéis, nem disputa de protagonismo: cada um ocupa o lugar que lhe corresponde, e é exatamente essa fidelidade hierárquica que garante a harmonia da Sagrada Família.

                Para uma família ser feliz, ela precisa viver a submissão.

                A Sagrada Família é escândalo para uma cultura que confunde liberdade com autonomia absoluta. Ela ensina que a verdadeira liberdade não está em romper hierarquias, mas em habitá-las com fidelidade. A paz daquele lar foi fruto da observância fiel de uma ordem em que a submissão, longe de ser fraqueza, foi o princípio silencioso que sustentou tudo.

           Quando a cultura confunde liberdade com autonomia absoluta, ela rompe o vínculo entre a pessoa e qualquer referência que a transcenda. Liberdade passa a significar não dever nada a ninguém, não responder a nenhuma ordem objetiva, não reconhecer limites que não sejam autoimpostos. O resultado não é a emancipação do ser humano, mas o seu isolamento: um indivíduo soberano apenas em teoria, fragilizado na prática, condenado a sustentar sozinho o peso das próprias escolhas.

    Essa confusão nasce da recusa em admitir que a liberdade humana é relacional. Ninguém se constrói fora de vínculos, de autoridade, de tradição, de sentido herdado. Ao negar isso, a cultura contemporânea transforma a obediência em sinônimo de alienação e a submissão em violência, ignorando que toda formação moral, intelectual ou espiritual exige algum tipo de hierarquia.

São José submete-se à vontade divina revelada no silêncio dos sonhos. Deus não lhe fala em discursos longos, mas em ordens claras, e José obedece. E ao obedecer a Deus, ele assume plenamente seus deveres de marido e pai adotivo. José não governa para si; governa porque recebeu de Deus a missão de proteger, prover e conduzir. Sua autoridade nasce da obediência. Eis a primeira lição para os pais de hoje: não há verdadeira autoridade paterna sem submissão prévia a Deus. O pai que não se submete à verdade, à responsabilidade e ao sacrifício acaba governando por medo, ausência ou autoritarismo vazio.

Ele governa não para satisfazer desejos pessoais, mas para cumprir uma missão recebida. Sua autoridade não nasce da força, do temperamento ou da imposição, mas da responsabilidade. José sabe que responderá diante de Deus por Maria e por Jesus. Eis o ponto decisivo: o pai é chefe do lar por instituição divina e natural, não como dominador, mas como responsável último pelo bem comum da família. Onde essa consciência se perde, a autoridade se deforma ou desaparece.

Por isso, a autoridade paterna exige virtudes. Não se governa uma família apenas com boa intenção. É necessária a prudência, para decidir quando falar e quando silenciar, quando corrigir e quando esperar. A justiça, para não favorecer, não omitir, não ser arbitrário, dando a cada um o que lhe é devido. A fortaleza, para sustentar o lar nas crises, sem fugir, sem abandonar, sem transferir o peso da responsabilidade. A temperança, para dominar apetites e paixões, porque um pai escravo de si mesmo jamais conduzirá outros com segurança. A religião, para manter Deus no centro da casa, lembrando diariamente que a família não é um projeto humano fechado, mas uma realidade aberta ao céu. E, sobretudo, a maturidade, essa virtude silenciosa e rara, que permite ao homem agir não por impulsos, mas por convicção, não por vaidade, mas por dever.

São José também nos ensina que a autoridade paterna passa pelo trabalho. Ele trabalhou com as próprias mãos para sustentar Jesus e Maria. O pai é chamado a ser provedor, a carregar sobre os ombros o peso da responsabilidade material do lar. Não se trata apenas de dinheiro, mas de disposição para o sacrifício, para o cansaço, para a constância. O homem que foge do trabalho ou terceiriza essa missão enfraquece não só a economia da casa, mas a própria estrutura moral da família.

E José é ainda protetor. Protetor físico, quando foge para o Egito; protetor moral, quando preserva Maria; protetor espiritual, quando guarda o Redentor do mundo. Assim também o pai deve ser muralha: contra os perigos externos, contra os maus exemplos, contra as ideologias que corroem, contra o pecado que se infiltra. Um pai que não protege expõe; um pai que não vigia abandona.

Por isso é preciso dizê-lo sem medo: é doce, é bom, é seguro estar subordinado a um chefe justo, virtuoso e temente a Deus. A autoridade reta não oprime, porque não nasce do ego. Não humilha, porque se sabe servidora. Não destrói, porque está ordenada ao bem comum. Onde o pai governa como São José, obedecendo a Deus, sacrificando-se pelos seus e exercendo a autoridade com virtude, a família respira, cresce e encontra repouso.

A figura de Nossa Senhora revela, com uma clareza desconcertante, o verdadeiro significado do papel da mulher na família e o sentido autêntico da submissão. Maria submete-se livremente ao desígnio de Deus com um “faça-se” absoluto, sem barganhas, sem exigências, sem a pretensão de reescrever a missão segundo seus sentimentos. Essa liberdade interior é o primeiro ponto que o mundo moderno se recusa a compreender: a submissão cristã nunca é forçada; ela nasce de uma adesão consciente à verdade e à ordem querida por Deus.

E é precisamente essa mulher, cheia de graça, Mãe de Deus, superior a todas as criaturas, que se submete às ordens de São José. Aqui desmorona a caricatura moderna que associa submissão à inferioridade. Maria não obedece porque é menor, mas porque reconhece a autoridade legítima estabelecida por Deus para aquele lar. Sua obediência não é passividade; é cooperação ativa com a ordem. Ela não se anula, ela se oferece.

Ser submissa, portanto, não significa obedecer cegamente a caprichos ou tolerar injustiças. Significa reconhecer, em ordem, uma autoridade que deve ser exercida com responsabilidade, virtude e temor de Deus. A obediência de Maria é inteligente, firme e amorosa. Inteligente, porque nasce da fé; firme, porque não vacila diante das dificuldades; amorosa, porque visa sempre o bem comum da família. Essa submissão não apaga a mulher, dá-lhe um papel insubstituível como coração do lar.

A mulher não perde dignidade ao cooperar com a autoridade do marido; ela perde dignidade quando é empurrada para uma rivalidade que a afasta de sua vocação própria. Maria não precisou afirmar-se contra José para ser grande. Sua grandeza está justamente em saber ocupar o lugar que Deus lhe confiou, com humildade e força ao mesmo tempo.

Assim, a correta compreensão da submissão liberta a mulher do peso de ter que “provar” seu valor. Ela já é valiosa. Submeter-se, à maneira de Nossa Senhora, é escolher construir em vez de competir, unir em vez de dividir, confiar em vez de controlar. É essa postura que transforma uma casa em lar e faz da família não um projeto humano instável, mas uma obra sustentada pela graça e pela ordem de Deus.

E o Menino Jesus, o Verbo eterno, Senhor da história, aquele por quem tudo foi criado, submete-se. Submete-se ao tempo, à vida simples, à obediência diária, à autoridade legítima de seus pais. O Filho de Deus aprende a obedecer como filho. Isso é escandaloso para uma cultura que ensina crianças e jovens a questionar toda autoridade, mas não a dominar a si mesmos. Aos filhos de hoje, Cristo ensina: a obediência não é atraso, é formação; não é fraqueza, é caminho de maturidade. Quem não aprende a obedecer nunca saberá governar a própria vida.

Na Sagrada Família não há confusão de papéis, nem disputa de protagonismo. Ninguém tenta ocupar o lugar do outro. Cada um permanece onde Deus o colocou, e exatamente por isso há harmonia, paz e fecundidade. O mundo moderno promete famílias felizes sem hierarquia, liberdade sem obediência e amor sem sacrifício, e colhe lares fragmentados, pais ausentes, mães sobrecarregadas e filhos desorientados.

A Sagrada Família nos lembra que a ordem não é inimiga do amor; ela é sua guardiã. Onde o pai assume sua responsabilidade, onde a mãe coopera com confiança, onde os filhos obedecem com humildade, Deus habita. E onde Deus habita, mesmo as dificuldades se transformam em caminho de santidade.

Que Nazaré volte a ser o modelo de nossas casas. Que aprendamos, como eles, a ocupar o nosso lugar, não por imposição, mas por fidelidade. Porque só assim a família deixa de ser um campo de batalha e volta a ser aquilo que Deus sempre quis: uma escola de amor, obediência e salvação.