Fomos e somos salvos pela paciência de Deus

Sermão

Sermão para o V Domingo depois da Epifania.


Padre Lucas Altmayer, 07/11/2026 10:28

Os empregados do dono de um campo, diz-nos o Evangelho de hoje, descobriram joio no meio do trigo e querem arrancá-lo imediatamente, mas ele não permite: ao recolher o joio, poderiam arrancar também o trigo. Aqueles homens enxergam um mal que precisa desaparecer mas o proprietário considera a colheita que deseja obter e sabe que uma intervenção precipitada pode destruir o bem que está crescendo.

Essa decisão nos ajuda a compreender a paciência de Deus conosco. Deus conhece perfeitamente o mal que existe em nós, inclusive aquilo que procuramos esconder de nós mesmos. Entretanto, vê também o trigo que semeou e o fruto que sua graça pode produzir. Sua maneira de nos tratar considera essa obra inteira, que ainda está em crescimento. Quando nós já teríamos desistido, Deus continua oferecendo os meios para a conversão.

A nossa presença aqui deve muito a essa paciência. Se Deus tivesse encerrado a nossa vida em certos momentos, em que estado nos teria encontrado? Quantas vezes recebemos uma graça e demoramos a responder! Hoje podemos reconhecer pecados que antes defendíamos e desejar uma santidade que durante muito tempo não nos interessou. Deus nos concedeu tempo para chegar até aqui, e continua nos sustentando porque a obra ainda não terminou.

Para compreender o que essa paciência exige de nós, precisamos saber em que consiste a virtude da paciência. Santo Tomás de Aquino explica que a paciência preserva o bem da razão diante da tristeza, ou seja, é a virtude que impede que o sofrimento nos leve a abandonar o bem que devemos fazer. Ser paciente significa suportar uma dificuldade sem permitir que ela nos desvie da finalidade que devemos alcançar. Na vida cristã, essa firmeza recebe da caridade a sua força e depende do auxílio da graça.

A paciência supõe alguma coisa penosa que precisamos suportar. Enquanto tudo corresponde à nossa vontade, ainda não sabemos como reagiremos à contrariedade. É quando o sofrimento chega e permanece que precisamos dessa virtude, para conservar a fidelidade ao bem que nos foi confiado.

Isso se aplica aos sofrimentos físicos e às provações interiores. Uma enfermidade pode nos levar à revolta; uma dificuldade familiar pode nos fazer abandonar responsabilidades. Também os males da sociedade nos afligem, assim como os pecados que encontramos nos outros, ou a crise na vida da Igreja. A paciência governa nossa maneira de atravessar essas situações, impedindo que a dor, o sofrimento, a contrariedade e os desafios se tornem motivos para praticarmos o mal ou deixarmos de fazer o bem.

Na Paixão de Nosso Senhor, essa virtude aparece em sua perfeição. Cristo sofreu verdadeiramente em sua humanidade e permaneceu fiel à missão recebida do Pai. A crueldade dos homens não o fez abandonar a obra da nossa redenção. Mesmo diante daqueles que o crucificavam, continuou querendo a salvação dos pecadores. A cruz mostra até onde chegou o amor com que suportou o sofrimento para nos salvar. É a prova máxima de paciência.

A paciência de Deus se manifesta na  sua misericórdia, que concede ao pecador tempo e auxílio para voltar. E, no Filho de Deus feito homem, vemos essa misericórdia assumir também o peso do sofrimento humano e chegar até a morte por nós. Ele suportou uma coisa depois da outra e foi paciente pois nada desse sofrimento, real e intenso, o desviou da finalidade que se propunha: nos salvar. Nem mesmo a cruz!

A santificação de cada um participa dessa história de misericórdia. Deus conhece nossa lentidão e sabe quanto ainda resistimos à sua graça, mesmo assim concede oportunidades de recomeçar, para que a boa semente produza fruto numa alma em que ainda encontra tanta resistência.

É por isso que a paciência de Deus é o que alimenta a nossa esperança. E Devemos ser pacientes com  Deus. Esperar o tempo Dele, para que Ele realize a colheita no devido momento. Deus poderia retirar toda a maldade do mundo, poderia mudar todos os cenários políticos, sociais e familiares. Poderia resolver todos os nossos problemas. E o fará, mas na medida da Sua Providência e quando Ele julgar oportuno. Toda injustiça será reparada, todo malfeitor pagará por seus crimes, e todos receberão segundo suas ações. A nós nos compete sermos pacientes com Deus, suportar o que julgamos ser demora Dele e resignarmo-nos com sua Bela e Boa Providência.

Essa esperança também deve orientar nossa maneira de olhar o próximo. Na vida espiritual, quem hoje é joio pode amanhã tornar-se trigo, como observa Santo Agostinho ao comentar a parábola. A conversão é possível, e a condição presente de uma pessoa não nos autoriza a pronunciar uma sentença definitiva sobre ela.

O proprietário do campo adverte os empregados justamente sobre o perigo de sua intervenção. Eles podem atingir o trigo ao tentar arrancar o joio. Também nossos juízos são limitados. Podemos reconhecer que uma ação é pecaminosa, mas não conhecemos inteiramente uma alma, nem sabemos tudo o que Deus ainda fará para ajudá-la. Uma correção necessária exige prudência, para que nosso modo de combater o mal não prejudique o bem que desejamos preservar.

Diante do sofrimento, procuramos compreender o que o causou e o que podemos fazer para remediá-lo. Essa procura é legítima. Contudo, nem sempre encontraremos uma explicação suficiente, e algumas provações continuarão apesar dos nossos esforços. Ainda assim, permanece possível cumprir o nosso dever e confiar na Providência. Deus sabe o tempo da colheita, e a dificuldade presente não torna inútil a obra que realiza.

A Providência não nos promete uma vida sem contrariedades, mas podemos confiar que Deus não deixará de oferecer o auxílio necessário para cumprirmos sua vontade.

Precisamos ser pacientes conosco mesmos. Depois de uma queda, a vergonha pode nos levar a fugir da oração, como se devêssemos primeiro nos tornar dignos para então procurar Nosso Senhor. Justamente quando pecamos é que mais precisamos voltar a Ele. Mesmo quem caiu em pecado mortal deve continuar rezando, pedir a graça do arrependimento e procurar quanto antes a confissão. A gravidade da queda exige o regresso, e a misericórdia divina, que se manifesta paciente, torna esse regresso possível.

Também não devemos abandonar a busca de uma virtude porque ainda estamos longe de possuí-la.

Com o próximo, essa mesma paciência nos impede de transformar suas faltas numa acusação permanente. Uma pessoa que deseja melhorar precisa encontrar espaço para recomeçar.

O pecado alheio não nos concede o direito de humilhar, nem de retribuir uma injustiça com outra.

O Deus que nos acolheu tantas vezes também deseja salvar essa pessoa. Conformar nossa paciência à dele significa respeitar essa obra, mesmo quando não conseguimos enxergar seus frutos. O juízo definitivo pertence ao Senhor. A nós cabe agir com justiça e continuar querendo o bem de quem Ele ainda chama à conversão.

São Paulo ensina que a esperança não decepciona. Podemos nos enganar quanto aos resultados que esperamos e quanto ao tempo em que desejamos alcançá-los. Deus, porém, permanece fiel às suas promessas. Nossa esperança está nele e no auxílio que oferece para chegarmos à vida eterna. Por isso, o sofrimento que atravessamos não deve nos fazer desistir das suas obras.

A colheita virá. A paciência divina nos concede tempo para a conversão, e precisamos acolher essa graça enquanto a recebemos. Se hoje podemos voltar a Deus, é porque sua misericórdia ainda nos abre o caminho. Que essa lembrança nos torne pacientes durante as provações e mais caridosos com aqueles que caminham ao nosso lado.

Fomos alcançados pela paciência de Deus e continuamos vivendo de sua misericórdia. Peçamos que a boa semente amadureça em nós, com nossa correspondência à graça, para que, no dia da colheita, o Senhor nos encontre como trigo de seu campo, fruto da paciência com que cuidou de nossa salvação.