Filhos de deus ou filhos do demônio?

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 14:30

Ao iniciarmos este tempo da Paixão, queridos fiéis, a Santa Mãe Igreja coloca diante de nossos olhos o Evangelho em que Jesus e os judeus discutem de maneira séria e intensa. Jesus discute com doçura, jamais levantou a voz para discutir com seus inimigos. Os judeus, entretanto, cheios de raiva, vociferam violentamente contra Nosso Senhor: gritam, blasfemam e chegam ao ponto de pegar pedras para apedrejar Jesus.

                A discussão gira em torno do fato de que os judeus acusam Jesus de ser filho do diabo e de agir inspirado por ele. Os judeus dizem ser filhos de Abraão, enquanto Jesus seria filho do demônio. Nosso Senhor, desmontando os argumentos dos judeus, afirma ser o Filho de Deus.

                Entram em questão aqui, meus queridos fiéis, três pais: o demônio, de quem os judeus acusam Jesus ser o filho; Abraão, de quem os judeus se dizem filhos; e Deus, o Pai, de quem Jesus prova ser o Filho.

                E isto é extremamente interessante para nós que adentramos no tempo da paixão e nos aproximamos das alegrias pascais. A finalidade de cada quaresma, meus caros amigos, é de nos fazer viver como filhos de Deus, renunciando a paternidade do demônio e vivendo a filiação divina.

                O Evangelho de hoje nos ensina que podemos escolher, e cada um de nós deverá necessariamente fazer isso, escolher de quem somos filhos: somos nós os filhos do demônio ou somos nós os filhos de Deus?

                Se quisermos saber a resposta para esta pergunta basta que respondamos uma outra: de quem nós dependemos? A relação entre um pai e filho é a relação de dependência. Um filho depende de seu pai. Se quisermos saber de quem somos filhos, basta que digamos de quem dependemos. Assim o será com nossa vida, meus amigos: de quem nós dependemos? De Deus ou do demônio?

                A dependência do demônio é a dependência da mentira. Pois ela parece ter sentido de liberdade, mas na verdade é pura escravidão. Os filhos do demônio são escravos do demônio. O demônio é um pai funesto e enganador: não liberta, escraviza.

                Quando nós levamos nossas vidas desprezando os mandamentos da lei de Deus, nós vivemos como filhos do demônio: fazemos o que pensamos nos fazer livres, mas no fundo nos escravizamos.

                As seduções do demônio parecem nos dar felicidade, mas só nos dão vazio e tristeza. Os nossos vícios pecaminosos são a experiência concreta de que o fruto do pecado é a escravidão. Infelizmente, muitos católicos ainda são filhos do demônio: para serem felizes dependem do demônio (do pecado); para a vida valer a pena, dependem do demônio (do pecado); para fazer o que gostam, dependem do demônio (do pecado). Quantos de nós que, o que realmente gostam, é do pecado, se afundar no pecado e se iludir nos prazeres que eles nos causam: pecados contra a castidade, contra a caridade, contra a pureza, contra o próximo e por aí vai. Meus amigos, do que está dependendo nossa felicidade? Onde estamos colocando a dependência do sentido de nossas vidas? Se for no pecado, somos filhos do diabo e a consequência é a escravidão. O diabo não é um pai amoroso, é um senhor que escraviza, e se não nos arrependermos e mudarmos de vida, seremos escravizados eternamente no fogo do inferno.

                Tão outra é a paternidade divina, meus caros! Deus é um Pai amoroso e, para saber se somos filhos de Deus, devemos nos perguntar: eu dependo de Deus? Todos nós estamos convencidos de que somos filhos de Deus, mas nem todos nós os somos, de fato. E isso acontece pois não queremos depender de Deus: temos medo de que, se confiarmos nossas vidas a Deus, ela será muito difícil e talvez sem sentido. Um filho de Deus depende, em tudo, de Deus, como qualquer filho depende de seu pai. Para viver como filhos é preciso abandonar-se em Deus.

                Quantas vezes, caros fiéis, não vivemos como filhos de Deus. Fazemos nossos planos, traçamos nossos projetos baseados somente em nós mesmos e não em Deus! Dizemos que Deus é nosso Pai, mas não nos abandonamos Nele. Temos medo de perder dinheiro, de perder oportunidades, de perder prazeres, de perder amizades, de perder, em última análise, o sentido de nossas vidas. Mas, meus caros amigos, “quem quiser ganhar a sua vida, vai perde-la, e quem a perder, por causa de Deus, a encontrará”, disse Nosso Senhor. Se não vivermos abandonados em Deus, confiando Nele, como filhos em relação a um pai, perderemos nossas vidas. Por causa da nossa fidelidade a Deus, parece que, se seguir a lei e os mandamentos Dele, seremos prejudicados: se eu não evitar ter filhos agora, serei prejudicado; se eu não abandonar tal pessoa ou amizade agora, serei prejudicado; se eu não for em tal evento, serei prejudicado. Se eu não me vestir como o mundo se veste, serei ignorado; se eu tiver mais filhos, serei empobrecido, se eu não for em tal evento, não serei popular; se eu deixar de ir às academias, não estarei esteticamente aceitável; se eu disser que não faltar a missa de domingo, serei inconveniente. Se eu abandonar a tentação agora, perderei uma chance de sentir aquele prazer que só o pecado me dá.

                Se confiássemos verdadeiramente em Deus, meus amigos, seríamos dóceis aos seus pedidos e suas leis. “Que Pai, a quem o filho pede pão, lhe dá uma serpente”?, disse Jesus. Nosso Senhor nos mandou confiar em Deus Pai, Ele disse que Deus se preocuparia conosco, cuidaria das nossas necessidades, velaria por cada um de nós. Ele faz isso até com os lírios do campo e com as aves dos céus, não faria isso conosco?

                Talvez tenhamos de enfrentar dias ruins, mas “ainda que eu ande no vale tenebroso, nenhum mau eu temerei”. Deus é nosso pastor e nosso pai, nada nos faltará.

                Jesus se disse Filho de Deus e por isso Ele se abandonou inteiramente em Deus Pai. Parece que tudo foi em vão. Veremos isso nos próximos dias, ao celebrarmos o tríduo pascal. Jesus, na Quinta-feira Santa, suou sangue, e pediu a Deus Pai: se for possível, afaste de mim este cálice, ou seja, a morte de cruz. Entretanto, abandonou-se inteiramente em Deus, querendo depender da vontade do Pai ao dizer: “contudo, seja feita a tua vontade”. E a aceitação da vontade do Pai e o abandono de dependência o levaram à cruz. Por confiar na vontade do Pai, Jesus Cristo foi morto. Mas a vontade do Pai jamais será a morte e a ruína de seus filhos! A ressurreição de Jesus Cristo é sua vitória definitiva.

                Confiar em Deus Pai poderá nos fazer ter de carregar nossa própria cruz. Mas só seremos verdadeiramente filhos de Deus, se aceitarmos essa dependência. Ou aceitamos ser filhos de Deus, dependendo única e exclusivamente Dele, ou nossas vidas de filhos de Deus jamais serão autênticas.

                Hoje inicia-se o tempo da Paixão. Ele nos conduzirá à Sexta-feira Santa. Veremos o filho de Deus morrer na cruz. Parecerá que aquele que confia em Deus o faz de maneira vã. Parecerá que aquele que quer viver a filiação divina será sempre mal recompensado. Mas, lembremos, Deus é Pai Amoroso, não é como o demônio que promete alegrias e nos dá decepções. Deus promete a vitória aos seus filhos, mas não os ilude dizendo que não haverá cruz e sofrimento. É tempo de aproveitarmos bem estes últimos dias da quaresma para escolher de vez sermos filhos de Deus.

                Chegando ao término de nossa quaresma, renunciemos meus queridos fiéis, à paternidade do diabo que nos mantém na escravidão e na mentira das ilusões e das falsas felicidades. Recebamos a filiação divina, aquela que recebemos em nosso santo batismo, e que, ainda que nos encha de cruzes, é a única que pode dar sentidos às nossas vidas. Respondamos, com toda sinceridade: de quem nós dependemos? De Deus ou do demônio? A resposta dirá qual dos dois é nosso pai, de quem somos nós os filhos.