Padre Lucas Altmayer, 05/09/2026 23:29
O Evangelho de hoje nos apresenta uma cena profundamente dramática: Jesus se aproxima da cidade de Naim e encontra um cortejo que sai da cidade, levando um jovem morto para o sepulcro; de um lado está uma mãe viúva, acompanhada por uma multidão que chora, e à frente está o cadáver de seu único filho; do outro lado vem Jesus, acompanhado de seus discípulos e de uma multidão que O segue. São dois cortejos que caminham em sentidos opostos: um caminha para o túmulo, o outro caminha com Aquele que é a Vida. E quando esses dois cortejos se encontram, alguma coisa necessariamente precisa parar, porque a morte não pode continuar avançando quando se encontra com Cristo, que é a Vida.
Há aqui uma imagem muito poderosa para a nossa vida espiritual, porque também nós estamos sempre caminhando em algum cortejo. Ninguém permanece parado nesta vida; todos estamos seguindo alguma coisa, alguém, algum ideal, algum senhor. Talvez pensemos que somos absolutamente livres, que fazemos simplesmente aquilo que queremos, mas a realidade é muito mais séria: ou estamos caminhando com Cristo, ou estamos caminhando segundo o espírito do mundo; ou estamos avançando para Deus, ou estamos nos afastando d'Ele. E o fato de uma multidão estar caminhando conosco não significa absolutamente nada, porque uma multidão também pode caminhar para o lugar errado. Nem todo caminho que todos percorrem termina no lugar onde deveríamos chegar.
Santo Inácio de Loyola, na meditação das Duas Bandeiras, apresenta justamente esta realidade: diante de nós estão dois estandartes, duas bandeiras, dois comandantes, duas maneiras de viver. De um lado está o estandarte de Cristo; do outro, o estandarte do inimigo. E a grande questão da vida cristã é saber debaixo de qual bandeira nós estamos. Não basta dizer que somos católicos, não basta ter recebido o Batismo, não basta frequentar a igreja, não basta conhecer algumas orações; é preciso perguntar com sinceridade: debaixo de qual estandarte estou vivendo? Quem está comandando as minhas escolhas? Qual voz determina aquilo que eu considero certo ou errado? É Cristo quem estabelece os critérios da minha vida, ou sou eu quem escolhe do Evangelho somente aquilo que me agrada?
O cortejo de Naim nos ajuda a compreender isso. Aquela procissão seguia para o túmulo, e ninguém ali tinha poder para mudar seu destino. A mãe chorava, a multidão acompanhava, mas todos caminhavam para a morte. Até que aparece Cristo. E quando Cristo aparece, Ele não precisa de um grande discurso, não precisa de uma cerimônia, não precisa que aquela mulher Lhe explique sua situação; São Lucas diz simplesmente que, vendo-a, o Senhor se compadeceu dela. Cristo vê a dor antes mesmo de ser chamado. Ele se aproxima, toca o esquife e diz: “Jovem, eu te ordeno: levanta-te!” E aquele que estava morto senta-se e começa a falar.
É belíssimo perceber que Cristo não apenas consola aquela mãe; Ele interrompe o cortejo da morte. É exatamente isto que a graça faz em nossa vida. O pecado é um cortejo para a morte, ainda que muitas vezes pareça agradável, moderno, divertido e até socialmente aceito. O pecado pode começar como uma pequena concessão, um pensamento alimentado, uma amizade inconveniente, uma curiosidade, uma vaidade, uma impureza, uma mentira, uma negligência na oração, uma falta de caridade, uma resistência à correção; mas, pouco a pouco, ele vai formando um caminho, e aquele que começou caminhando por uma pequena estrada termina acompanhando um cortejo que vai para o túmulo.
Qual cortejo estamos acompanhando? Porque talvez alguém esteja dentro da Igreja, mas ainda esteja caminhando segundo o espírito do mundo. Talvez tenha o corpo na igreja, mas o coração esteja debaixo de outro estandarte. Talvez diga que ama Nosso Senhor, mas organize sua vida em função do dinheiro, da comodidade, da aprovação dos outros, da sensualidade, da carreira, do prazer, da própria vontade. Talvez tenha aprendido a linguagem católica, mas ainda não tenha aprendido a obedecer a Cristo. E isso é uma tragédia: estar fisicamente próximo do cortejo de Cristo e, interiormente, marchar na direção contrária.
Por isso, a pergunta de Santo Inácio é tão atual: sob qual estandarte você está? Porque o estandarte de Cristo não é simplesmente um símbolo bonito; é uma convocação para a batalha. Cristo Ressuscitado venceu a morte, mas nós ainda estamos em combate. O Ressuscitado não nos chama para uma vida de comodidade espiritual, como se depois da Ressurreição já não houvesse luta; Ele nos chama para segui-Lo, para renunciar ao pecado, para carregar a cruz, para mortificar nossas paixões desordenadas, para permanecer fiéis quando o mundo inteiro nos disser que estamos errados.
Queremos a vitória de Cristo sem querer combater sob o estandarte de Cristo.
Mas ninguém pode seguir dois estandartes ao mesmo tempo. Não é possível pertencer a Cristo e conservar deliberadamente aquilo que sabemos que O ofende. Não é possível dizer “Senhor, eu Vos amo” e, ao mesmo tempo, organizar toda a vida em torno daquilo que o mundo considera importante. Não podemos caminhar simultaneamente para o túmulo e para a Ressurreição. Chega um momento em que precisamos escolher.
E talvez seja justamente por isso que o encontro dos dois cortejos seja tão importante. Cristo entra no caminho daquele que está indo para a morte. Ele não fica distante, olhando de longe. Ele se aproxima. Ele toca aquilo que representa a morte. Ele fala. E a morte precisa ceder. Quantas vezes Nosso Senhor fez isso conosco! Quantas vezes estávamos caminhando para o pecado e uma graça nos interrompeu; quantas vezes uma palavra de alguém, uma confissão, uma pregação, uma doença, uma perda, uma humilhação, uma dificuldade ou simplesmente um movimento interior da graça nos fez parar e perceber: “Eu estou indo para o lugar errado”.
Talvez hoje Cristo esteja novamente atravessando o nosso caminho. Talvez aquilo que nos incomoda na vida seja justamente a mão de Cristo tentando parar o nosso cortejo. Talvez aquela correção que recebemos, aquela contrariedade que não aceitamos, aquela humilhação que nos revolta, aquela renúncia que nos custa tanto, sejam precisamente ocasiões pelas quais Nosso Senhor quer nos tirar de um caminho de morte e colocar novamente sob o Seu estandarte.
Quando o jovem ressuscita, Jesus o entrega novamente à sua mãe. Cristo não ressuscita aquele rapaz para que ele continue vivendo como antes, como se nada tivesse acontecido. Aquele que recebeu a vida de Cristo recebeu uma vida nova. E esta é também a lógica da nossa conversão. Cristo não quer apenas tirar-nos de determinados pecados; Ele quer dar-nos uma vida nova, quer que passemos a viver sob uma nova bandeira, com novos critérios, novas prioridades, novo coração.
Não basta admirar o Ressuscitado; é preciso alistarmo-nos sob o Seu estandarte. Não basta dizer que Cristo venceu; é preciso lutar com Ele. Não basta celebrar a Ressurreição; é preciso morrer para o pecado. Não basta desejar o Céu; é preciso viver de tal maneira que a nossa vida caminhe efetivamente para o Céu.
E então podemos compreender a grande pergunta deste Evangelho: quando os dois cortejos se encontram, em qual deles estamos? Se hoje a nossa procissão se encontrasse com Cristo, Ele encontraria em nós alguém que está caminhando com Ele ou alguém que precisa ser arrancado de um caminho de morte? Se hoje Nosso Senhor nos chamasse para sair definitivamente de uma situação de pecado, estaríamos dispostos a obedecer? Se Ele nos pedisse uma renúncia, uma penitência, uma mudança de vida, aceitaríamos? Se Ele nos dissesse: “Levanta-te!”, nós nos levantaríamos?
Não podemos nos iludir: a vida passa rapidamente. Um dia, o nosso cortejo também chegará diante do túmulo. A questão decisiva não será quanto dinheiro acumulamos, quantas pessoas nos admiraram, quanto conforto tivemos ou quantos prazeres experimentamos; a questão será muito mais simples e muito mais terrível: estávamos sob qual estandarte? Estávamos com Cristo ou contra Cristo? Caminhávamos para a Vida ou para a morte?
Peçamos, portanto, a Nossa Senhora, que esteve perfeitamente debaixo do estandarte de Cristo, que nos ensine a escolher sem hesitação. Que Ela nos obtenha a graça de abandonar o cortejo da morte, de romper com aquilo que nos afasta de Deus e de colocar-nos definitivamente sob o estandarte do Seu Filho Ressuscitado. E quando vierem as lutas, as tentações, as renúncias e as cruzes, que não nos esqueçamos de que o nosso Capitão já venceu: Cristo ressuscitou, a morte foi vencida, o túmulo está vazio; resta-nos apenas permanecer fiéis ao Seu estandarte até o fim.
Porque, no final, não será suficiente termos conhecido o estandarte do Ressuscitado; será preciso que tenhamos vivido e morrido debaixo dele.