Padre Lucas Altmayer, 22/10/2026 14:02
Há uma coincidência muito expressiva entre aquilo que celebramos hoje e aquilo que acontece em nosso país. Hoje celebramos a festa de Cristo Rei e, ao mesmo tempo, muitos brasileiros se apresentam diante das urnas para escolher aqueles que exercerão o governo da sociedade civil. Durante meses ouvimos falar de candidatos, partidos, direita e esquerda, projetos diferentes para o país. E justamente hoje a Igreja nos obriga a elevar os olhos acima de todas essas disputas e proclamar uma verdade que vem antes de qualquer eleição: Jesus Cristo é Rei.
Ele não se torna Rei porque nós o escolhemos. Seu poder não procede do consentimento popular. Nenhuma maioria lhe entregou uma coroa e nenhuma maioria poderia retirar-lhe essa coroa. Pio XI, ao instituir esta festa em 1925, recordava que Cristo possui sobre todas as criaturas um verdadeiro direito de reinar. Ele é Rei por aquilo que é e também por aquilo que fez por nós. Somos criaturas suas e fomos resgatados pelo preço de seu Sangue. Por isso seu domínio alcança nossa inteligência, nossa vontade e nossa vida inteira.
É muito importante compreender isso, porque estamos acostumados a falar como se a sociedade pudesse conceder algum espaço a Nosso Senhor. Ficamos contentes quando permitem um crucifixo, quando um político menciona Deus, quando determinada lei conserva alguma coisa da ordem cristã. Mas uma sociedade não concede direitos a Jesus Cristo. Ela reconhece direitos que Ele já possui. Esta é uma diferença enorme. Quem concede um direito considera-se, de algum modo, superior àquele que o recebe. Quem reconhece um direito curva-se diante de algo que existia antes de sua própria decisão.
E é justamente aqui que a festa de Cristo Rei entra em conflito com uma parte fundamental da política moderna.
As palavras “direita” e “esquerda”, no sentido político que adquiriram na modernidade, nasceram no ambiente da Revolução Francesa. No princípio, a disposição dos grupos na Assembleia colocou de um lado defensores da monarquia e da ordem tradicional e, de outro, partidários das transformações revolucionárias; depois, dentro da própria Revolução, apareceram divisões entre correntes mais moderadas e mais radicais. As palavras permaneceram, atravessaram os séculos e mudaram muitas vezes de conteúdo. A Direita e a Esquerda defenderam ora pautas contrárias, ora pautas recíprocas, ora pautas complementares.
Para nós, porém, a questão mais profunda não consiste em decidir qual dessas palavras é mais simpática. Precisamos perguntar qual princípio utilizaremos para julgar ambas.
A Revolução Francesa foi uma etapa decisiva de um processo pelo qual a sociedade europeia procurou organizar a vida pública independentemente da antiga ordem cristã. A religião deveria progressivamente deixar de ser o princípio que ordenava a sociedade para tornar-se uma questão submetida às novas concepções de liberdade e soberania política.
E essa separação entre a vida pública e o domínio de Cristo é precisamente uma das coisas contra as quais a festa de hoje foi instituída: o Reinado de Cristo não pode estar separada da vida pública, da política da sociedade.
Pio XI é claríssimo. Ele diz que os males de seu tempo provinham, em grande parte, de os homens terem afastado Jesus Cristo e sua lei não somente da vida pessoal e familiar, mas também da vida pública. E acrescenta que não existe, quanto ao domínio de Cristo, diferença entre o indivíduo, a família e o Estado: todos estão submetidos ao seu império.
Percebamos então a profundidade do problema. Direita e esquerda podem combater furiosamente entre si. Podem discordar sobre economia, propriedade, impostos, assistência social, educação e costumes. Algumas dessas divergências são importantíssimas e podem envolver questões morais graves. Não estamos dizendo que todas as propostas políticas são moralmente equivalentes. Não são. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas disputas: Jesus Cristo possui direitos sobre a sociedade política?
Se a resposta prática for que Cristo pode reinar dentro da igreja, dentro de nossa casa ou dentro de nossa consciência, enquanto a sociedade deve organizar-se como se sua realeza não existisse, então ainda não chegamos à doutrina que celebramos hoje.
O liberalismo político, como faz por vezes a Direita, quando reivindica para a sociedade uma autonomia diante da lei divina, não nos dá o reinado social de Cristo. O poder não emana do povo, o povo não é supremo e a nação não está acima de tudo. O socialismo, comum na Esquerda, condenado repetidamente pela Igreja em suas teses incompatíveis com a ordem cristã, também não o faz. Podem existir em campos políticos diferentes reivindicações que coincidam com bens defendidos pela Igreja, mas esses bens não pertencem originalmente a uma ideologia política.
O cuidado dos pobres não pertence à esquerda. A dignidade do trabalhador não pertence ao socialismo. A preocupação com aqueles que sofrem e a obrigação social de socorrê-los pertencem à justiça e à caridade cristãs. Muito antes de existir uma esquerda política, a Igreja alimentava pobres, cuidava dos enfermos, fundava hospitais e ensinava que o salário e as condições de trabalho estavam submetidos à justiça. E os santos de Deus são os que fazem isso.
Da mesma maneira, a defesa da criança ainda no ventre de sua mãe não pertence à direita. A família não pertence ao conservadorismo político, que se mostrou, inclusive, completamente incapaz de defender os direitos das famílias. O direito dos pais na educação dos filhos não foi inventado por um partido político. Essas coisas pertencem à ordem estabelecida por Deus. Se amanhã aqueles que se dizem de direita as abandonarem, elas não deixarão de ser verdadeiras. Se aqueles que se dizem de esquerda defenderem uma exigência autêntica da justiça, ela não se tornará falsa por isso.
O problema começa quando recebemos nossas categorias fundamentais da política moderna e depois procuramos descobrir em qual delas conseguiremos encaixar pedaços da doutrina católica. Deveríamos fazer exatamente o contrário. Recebemos de Cristo a verdade e, diante dela, julgamos tudo aquilo que nos é apresentado.
Isso explica por que um católico pode encontrar em determinado campo político uma defesa mais clara de um princípio da lei natural e, ao mesmo tempo, não transformar esse campo político em sua esperança.
A experiência mostra também como é perigoso fazê-lo. Quantas vezes os católicos depositaram suas esperanças em homens ou movimentos porque prometiam defender alguma causa justa e, depois de alcançado o poder, descobriram que os princípios eram negociáveis. As bandeiras permanecem nos discursos enquanto a realidade muda muito pouco. Não basta alguém chamar-se conservador para que a família esteja protegida. Não basta falar de liberdade para que seja reconhecida a verdadeira liberdade. E não basta invocar Deus durante uma campanha eleitoral para reconhecer efetivamente os direitos de Deus depois dela.
Há uma diferença imensa entre utilizar o nome de Cristo e reconhecer sua coroa.
O reinado social de Nosso Senhor exige muito mais. Pio XI ensina que os governantes estão obrigados a prestar publicamente honra e obediência a Cristo e que o Estado deve levar em consideração os mandamentos de Deus e os princípios cristãos ao fazer suas leis, administrar a justiça e cuidar da formação moral dos jovens. Foi justamente para recordar essas verdades às nações que o Papa estabeleceu esta festa.
Cristo não pede para ser o patrono religioso de um projeto político que continuará organizado segundo princípios estranhos à sua lei. Ele é Rei.
É por isso que não podemos colocar nossa esperança nem na direita nem na esquerda.
Isso não significa que um católico possa ser indiferente diante das eleições. Também não significa que todas as escolhas sejam iguais ou que possamos votar sem levar em consideração a lei de Deus. Pelo contrário. Justamente porque Cristo é Rei, nossa consciência não pertence a um partido. Devemos julgar propostas, candidatos e leis à luz da ordem moral objetiva. Existem coisas sobre as quais pode haver legítima discussão prudencial entre católicos, e existem outras que uma maioria jamais poderia tornar moralmente boas.
A urna não suspende os mandamentos de Deus.
Também não podemos cair no erro contrário e concluir que, já que nenhum partido realiza plenamente o reinado de Cristo, devemos abandonar a vida pública. Pio XI lamentava precisamente a fraqueza e a timidez dos católicos que deixavam de combater pelos direitos de Nosso Senhor. O reinado social de Cristo exige nossa ação. Precisamos trabalhar para que sua lei seja reconhecida e para que a sociedade volte a compreender que existe uma autoridade superior ao Estado, aos partidos e à vontade das maiorias.
Mas existe uma condição para que essa luta seja verdadeiramente católica: não podemos substituir Cristo por aquilo que deveria ser apenas um instrumento.
Um político não é nosso salvador. Um partido não é a Igreja. Uma eleição não é o Juízo Final. Uma vitória eleitoral pode impedir males, favorecer bens e abrir possibilidades importantes para uma sociedade. Pode também produzir enormes decepções. Em qualquer dos casos, o Reino de Cristo não começa nem termina na contagem dos votos.
Há algo ainda mais sério. Seria muito fácil sair daqui dizendo que o Brasil precisa reconhecer Cristo Rei enquanto nós mesmos conservamos territórios nos quais não queremos que Ele reine. A realeza social de Cristo começa por homens realmente submetidos à sua lei. Seria contraditório exigir que o Estado obedecesse a Cristo enquanto nós negociamos pessoalmente com seus mandamentos.
Queremos que Cristo reine na sociedade? Então precisamos aceitar que Ele reine primeiro sobre aquilo que depende diretamente de nós. Nossa vida não pode desmentir aquilo que nossos lábios proclamam nesta festa. E, à medida que famílias verdadeiramente cristãs forem formadas, que homens públicos tiverem uma consciência submetida à lei de Deus e que os católicos deixarem de pedir licença ao mundo para professar integralmente sua fé, o reinado de Cristo deixará de ser para nós uma bela expressão litúrgica e voltará a ser aquilo que Pio XI desejava: um princípio capaz de ordenar a própria sociedade.
Hoje, portanto, enquanto o país olha para as urnas, nós olhamos para o altar. Na urna, os homens escolhem quem exercerá uma autoridade durante algum tempo. No altar, nós reconhecemos Aquele de quem procede toda autoridade legítima. Aos governantes confiamos uma função; diante de Cristo reconhecemos um direito que precede nossa escolha e sobreviverá a todos os governos.
Daqui a alguns anos, muitos dos nomes que hoje ocupam nossas discussões políticas terão desaparecido. Outros partidos surgirão, alianças serão refeitas e palavras que hoje parecem decisivas poderão significar coisas diferentes. Mas continuará verdadeira a mesma palavra que São Paulo proclamou: Oportet illum regnare. É preciso que Ele reine.
Esta é a nossa esperança. Não esperamos a salvação da esquerda. Não esperamos a salvação da direita. Não esperamos que uma ideologia moderna realize aquilo que somente pode nascer da submissão da sociedade à verdade de Cristo. Trabalhamos no mundo, cumprimos nossos deveres civis e fazemos as escolhas que nossa consciência católica exige, sabendo que acima de cada poder humano existe um trono que nenhuma eleição colocou ali.
E esta festa foi instituída precisamente para que não tenhamos vergonha de dizê-lo publicamente.
Cristo tem direito sobre nossas famílias. Cristo tem direito sobre nossas escolas. Cristo tem direito sobre as leis pelas quais uma sociedade se governa. Cristo tem direito sobre aqueles que governam e sobre aqueles que são governados. Pio XI quis que as nações se recordassem de que também os Estados devem prestar honra pública e obediência ao Salvador.
Por isso não pedimos ao mundo simplesmente que reserve um espaço para Nosso Senhor. Não pedimos que tolere Cristo entre tantas outras possibilidades. Não lhe oferecemos uma pequena parte da sociedade como se estivéssemos sendo generosos com Deus.
Diante de Jesus Cristo não concedemos direitos, reconhecemos os direitos de Cristo Rei, que viva Ele, seu Reino e sua Lei.