Deus sabe que você não aguenta mais! E ai? O que você você vai fazer?

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 05/07/2026 22:56

Há uma palavra de Nosso Senhor que hoje deveria encher a nossa alma de profunda consolação. Antes mesmo de realizar o milagre da multiplicação dos pães, Jesus volta os Seus olhos para aquela multidão que O seguia havia três dias e pronuncia uma frase que revela toda a delicadeza do Seu Coração: "Tenho compaixão desta multidão." É Cristo quem percebe o cansaço daqueles homens; é Cristo quem toma a iniciativa; é Cristo quem Se preocupa com aqueles que, talvez já sem forças, continuam caminhando atrás d'Ele.

Nosso Senhor conhece profundamente o coração humano. Sabe que o entusiasmo do início não basta para sustentar toda uma vida de fidelidade. Aquela multidão havia deixado suas casas, seus trabalhos, seus interesses e permanecera junto d'Ele durante três dias inteiros. O fervor dos primeiros momentos, porém, não impedia que o corpo sentisse o peso da caminhada. As provisões haviam acabado, o alimento faltava, as forças diminuíam. Eram homens que continuavam seguindo Jesus, mas já começavam a desfalecer.

E é precisamente isso que move a compaixão do Salvador. "Se os despedir em jejum para suas casas, desfalecerão pelo caminho."

Caríssimos, essa multidão somos nós.

Também nós começamos um dia a seguir Nosso Senhor com grande entusiasmo. Recordamo-nos talvez dos primeiros tempos da nossa conversão, quando a oração parecia mais fácil, quando o horror ao pecado era mais vivo, quando a confissão era aguardada com alegria, quando um bom livro espiritual nos prendia durante horas, quando o Rosário era rezado com gosto e quando o desejo da santidade parecia consumir toda a nossa alma.

Mas o tempo passou.

Vieram as dificuldades da vida, as preocupações, as distrações, as tentações repetidas, o peso da rotina. E, quase sem perceber, aquele fervor começou a diminuir. Já não odiamos o pecado como outrora. Certos defeitos, que antes combatíamos energicamente, voltaram a instalar-se em nossa vida. A oração tornou-se mais distraída. A leitura espiritual foi sendo adiada. A confissão tornou-se menos frequente. Continuamos caminhando atrás de Cristo, é verdade, mas talvez já estejamos caminhando cansados. Talvez estejamos exatamente como aquela multidão do Evangelho: ainda perto de Jesus, mas começando a desfalecer pelo caminho.

É justamente nesse momento que o Evangelho nos revela algo admirável. Nosso Senhor não repreende aquela multidão por estar cansada. Também não lhe exige forças que ela já não possui. Antes de tudo, Ele sente compaixão. Porque Deus nunca ignora a fragilidade daqueles que sinceramente procuram segui-Lo. Ele sabe do que somos feitos.

Conhece nossas quedas, nossas limitações e nossos cansaços. Mas precisamente porque conhece a nossa pobreza, deseja alimentá-la.

É então que acontece um detalhe que, à primeira vista, poderia passar despercebido. Antes de realizar o milagre, Cristo pergunta aos Apóstolos quantos pães possuem.

A pergunta parece desnecessária. Afinal, Aquele que criou o universo do nada poderia muito bem criar alimento do nada. Se era capaz de ressuscitar mortos, de dar vista aos cegos e de acalmar os mares, certamente não precisava de cinco pães para alimentar uma multidão.

Entretanto, Nosso Senhor quis agir de outro modo. Quis começar justamente por aquilo que eles já possuíam. Cinco pães. Dois peixes. Era tudo, era muito pouco. Tão pouco que os próprios Apóstolos quase demonstram incredulidade. "Mas que é isso para tanta gente?"

É importante insistirmos aqui, caríssimos, contra uma interpretação muito difundida em nossos dias. Alguns afirmam que não houve verdadeiro milagre, que a multiplicação dos pães teria sido apenas um belo gesto de partilha, no qual cada um resolveu repartir aquilo que trazia escondido consigo. Mas esta nunca foi a fé da Igreja. Nosso Senhor realizou um verdadeiro milagre: multiplicou realmente os pães e os peixes, criou alimento onde antes ele não existia. Aquele que criou o trigo podia multiplicar o pão. Aquele que povoou os mares podia multiplicar os peixes. Negar este milagre é diminuir o poder do próprio Deus.

Entretanto, tão belo quanto o milagre é perceber a maneira como Deus costuma agir. Cristo não pediu aos Apóstolos aquilo que eles não possuíam. Pediu exatamente aquilo que ainda lhes restava. E talvez seja esta a pergunta que hoje Ele dirige a cada um de nós. "O que ainda tens?" Não pergunta pelo fervor que já perdemos. Não pergunta pelas virtudes que ainda não adquirimos. Não pergunta pelas graças que desperdiçamos. Pergunta apenas pelo pouco que ainda conservamos.

Talvez ainda exista em nossa alma uma sincera devoção ao Santo Rosário. Talvez ainda sintamos gosto pela leitura espiritual. Talvez a visita ao Santíssimo Sacramento continue sendo um momento de paz. Talvez a confissão ainda desperte em nós um verdadeiro desejo de conversão. Talvez haja uma devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora, ao nosso Anjo da Guarda ou ao santo de nossa particular devoção. Talvez ainda exista uma pequena chama escondida sob as cinzas de tantas distrações. 

E nós olhamos para esse pouco e pensamos exatamente como os Apóstolos: "mas que é isso?" "De que adianta rezar apenas um Terço, se já não tenho o fervor de antes?" "Que diferença fará ler algumas páginas de um bom livro espiritual?" "Que proveito haverá numa confissão semanal, se continuo lutando contra os mesmos pecados?"

Nós fazemos contas, Cristo faz milagres. Nós olhamos para a insuficiência, Cristo olha para a possibilidade. Nós contemplamos cinco pães e dois peixes. Cristo contempla alimento suficiente para uma multidão inteira.

Assim também acontece na vida espiritual. Deus quase nunca devolve o fervor de uma só vez. Ordinariamente, Ele começa multiplicando uma pequena fidelidade. Um Terço rezado todos os dias pode tornar-se a porta de uma vida interior profunda. Dez minutos diários de leitura espiritual podem reacender o amor pelas coisas de Deus. Uma confissão frequente pode devolver à alma uma delicadeza de consciência que parecia perdida. Uma visita semanal ao Santíssimo Sacramento pode transformar inteiramente uma vida.

Porque o milagre nunca esteve nos cinco pães, o milagre sempre esteve nas mãos de Cristo.

Caríssimos, proponho hoje uma resolução muito concreta. Antes mesmo de deixarmos esta igreja, cada um de nós escolha uma única prática de piedade. Apenas uma. Não dez, não muitas, mas uma só. Aquela na qual ainda existe algum gosto por Deus, alguma devoção sincera, algum desejo verdadeiro de fidelidade. Talvez seja o Terço diário. Talvez a leitura espiritual. Talvez a meditação, a confissão frequente, a visita ao Santíssimo ou outra prática que ainda conserve viva a chama da graça em nossa alma.

Escolhamo-la hoje. Entreguemo-la a Nosso Senhor nesta Santa Missa. E façamos o firme propósito de vivê-la com generosidade, sem negociações, sem desculpas. Não escolhamos a maior penitência, nem o propósito mais difícil. Escolhamos aquilo que ainda está vivo. Porque Cristo não pediu aos Apóstolos aquilo que eles não possuíam; pediu exatamente aquilo que ainda lhes restava.

E não tenhamos medo de oferecer tão pouco. O pouco oferecido com generosidade torna-se muito nas mãos de Deus. A graça nunca despreza os pequenos começos. Pelo contrário, é deles que costuma nascer a santidade.

Se hoje entregarmos sinceramente a Cristo os nossos cinco pães e os nossos dois peixes, talvez nos pareçam insuficientes, talvez nos pareçam ridículos diante da grandeza da nossa miséria. Mas basta que estejam nas mãos do Salvador para que se tornem alimento abundante. Porque Deus não costuma pedir aquilo que já perdemos; pede aquilo que ainda conservamos, para que, a partir desse pouco, realize em nós o milagre de um coração renovado.

E talvez seja esta a grande esperança que este Evangelho nos deixa: o homem oferece o pouco que ainda possui. Deus oferece aquilo que o homem jamais poderia produzir sozinho. A nossa fidelidade inicia a obra; a graça leva-a à perfeição.

Não desprezemos, portanto, os nossos cinco pães e os nossos dois peixes. Nas mãos de Cristo, o pouco torna-se abundância, a fidelidade torna-se perseverança, o fervor quase apagado torna-se novamente chama. Porque uma alma que ainda conserva um pequeno desejo de Deus já possui tudo aquilo de que Cristo precisa para começar um milagre.