Coragem, meu amigo! mais motivos para confiar do que para desanimar

Sermão

Sermão para o XIX Domingo depois de Pentecostes


Padre Lucas Altmayer, 05/10/2026 20:50

O Evangelho de hoje nos apresenta a parábola do banquete nupcial, no qual um dos convidados está presente mas não está vestido com as vestes dignas de um casamento. O rei deu uma festa de casamento para seu filho e percebeu que um dos convivas entrou na festa mas estava sem a roupa adequada. Irado, o rei mandou amarrar o convidado e o lançar nas trevas exteriores, aonde haveria choro e ranger de dentes. 

 É mais um daqueles Evangelhos em Nosso Senhor age, Ele mesmo ou em parábolas, de maneira enérgica contra a falta de conversão e de frutos na vida espiritual. Como quando Ele amaldiçoou uma figueira que não produzia figos, como quando contou a parábola dos talentos, condenando aquele que não quis multiplicar o dinheiro que recebeu. Como quando conta a parábola da figueira estéril, que não produzia fruto algum durante três anos. Como no Evangelho de hoje, em que o rei cobra a falta da veste que faz o convidado digno para a festa, ou seja, Deus nos cobra da falta de frutos da graça em nossas almas.

 Meus amigos, por que é que a graça produz tão pouco fruto, ou praticamente nenhum fruto em nós?

 Dentre os motivos, dois se apresentam de maneira mais comum. O primeiro é a nossa presunção. Por causa da nossa presunção, produzimos pouco, quase nenhum fruto espiritual. Presumimos que, porque temos os meios da salvação, estamos salvos. Presumimos que, porque temos os meios mais excelentes para nossa salvação, estamos salvos, somos os melhores e os mais excelentes. Presumimos que, por que estamos acima da média dos outros homens, seremos consequentemente melhores do que eles pelo simples fato de frequentarmos estes meios. 

 Exatamente como o convidado da festa de hoje: achou que porque tinha sido convidado, já estava necessariamente na lista dos escolhidos, dos salvos, dos dignos de estar diante do Rei. Vejam que interessante: qual era essa veste nupcial que o convidado não quis usar, e que em geral representa a graça? Era um manto que o anfitrião dava aos convidados para que cobrissem suas vestes sujas de poeira do caminho que conduzia até a festa. O rei havia dado esta veste aos seus convivas, mas houve um que achou que, só porque estava na festa, não seria repreendido. Pensava que não precisa da veste, que sua bondade era suficiente para agradar o rei. E na verdade, a recusa da veste foi tremenda ofensa que fez ao anfitrião, o rei. Não foi condenado porque era pobre, porque não tinha boas roupas. Foi condenado por não usar a veste que o próprio rei oferecia, afim de se apresentar dignamente nas bodas do filho. 

 Nenhuma alma é condenada porque é miserável, fraca ou pobre em forças e meios para lutar pela sua salvação. As almas são condenadas porque não aceitam de Deus a salvação.

 É que, meus amigos, o segundo mal, o pior deles, o mais perigoso deles, o mais nefasto dos males que pode nos acontecer, é o desânimo. 

É a tentação mais perigosa que o inimigo da salvação dos homens pode oferecer. No desânimo não achamos socorro algum. Sentimos que a razão não basta para praticar todo o bem que Deus nos pede, para vestirmo-nos das vestes nupciais.

O maior perigo do desânimo é que ele não é visto como uma tentação e, entretanto, é uma grande tentação, já que todo sentimento oposto à lei de Deus, em si mesmo ou pelas consequências, é uma tentação. O desânimo é o sentimento que vai contra a Esperança, e ele é tão proibido quanto o que vai contra a fé, a caridade ou qualquer outra virtude. É a tentação mais perigosa, pois incita a alma a abandonar toda a obra de piedade.

Meus amigos, o que faz com que alguém queira agir? O que faz com que uma alma decida iniciar o caminho da santidade? O que faz com que uma moça comece um casamento, um rapaz comece um casamento? O que faz começar a vida a dois, dispostos a receber os filhos que Deus quiser mandar, as dificuldades de um casamento, as cruzes da vida? O que faz alguém rezar muito e ser muito fervoroso no começo da vida espiritual? Quando você, meu amigo, iniciou sua adesão mais fervorosa a Deus, o que lhe motivava? O que fazia você ser tão generoso?

 A esperança de ser bem-sucedido. Ninguém se lança naquilo em que pensa que será um fracasso. Só uma pessoa que delira pode trabalhar por algo que não tem esperança de conseguir. 

Mas muitos de nós estamos desanimados. Já não temos o fervor de antes. Muitos amaldiçoam o dia em que abraçaram a cruz que um dia tomaram com tanto fervor. O que faz com que alguém desanime?

A desproporção que existe entre a finalidade para a qual devemos tender e os meios que temos. É isso que desanima.

A pessoa tenta a santidade e, na realidade, está sempre a cair nos mesmos pecados. Tenta ser uma boa mãe, mas está sempre impaciente, sem vontade, cansada e sem tempo para si. Não conseguiu ser a cópia perfeita da mãe irreal da rede social. Tentou ser um bom chefe de família, mas se viu constantemente inundado por problemas que parecem ultrapassar todos os meios para assegurar estabilidade familiar: problema financeiro, problema de falta de trabalho, problema de organização etc.

A pessoa se agita, se perturba, e se deixa guiar somente pelo medo, pelo temor de não ser bem-sucedida. Ela se entrega ao desânimo; os meios são completamente desproporcionais à finalidade. Ela se desanima e, por isso, para de produzir frutos. Ela estanca por causa do medo.

É que, na verdade, todo desânimo é um orgulho. A pessoa coloca a esperança de seu sucesso em si. Toda ocupada dessas ideias tristes e desalentadoras, de que tem pouca coragem, de que não consegue fazer nada para agradar a Deus, ela considera como coisa inútil recorrer ao Senhor, pois pensa que Ele não quer ouvi-la. É orgulho, pois a pessoa faz depender de si e de suas forças as boas obras que deve realizar, a roupagem nupcial que deve vestir.

A Esperança nos faz ter certeza de que possuiremos a veste nupcial, não por causa de nossos esforços e do perfeccionismo de nossas vidas, mas única e exclusivamente por graça e misericórdia de Deus.

Nunca esqueçamos o que diz São Paulo: obtive misericórdia porque fui fiel? Não, obtive misericórdia e, por isso, fui fiel. O desanimado atribui a si mesmo o bem que faz. Por isso é orgulhoso.

Então, qual é o motivo certo da nossa esperança? Aquele que nos ensina o ato de Esperança que aprendemos a rezar: Meu Deus, espero em Vós porque sois fiel às vossas promessas, sois todo-poderoso e porque vossa misericórdia é infinita.

Deus é fiel às suas promessas. Deus não pode nos enganar. Ele disse que, se pedirmos, receberemos, que Ele atenderia, que estaria conosco até o fim. Ele prometeu que passará ao Céu o que vier se esforçando por entrar pela estreita porta. Ele disse que cuida de nós mais do que das aves dos céus, dos fios de nossos cabelos, dos lírios do campo. Ele disse que não daria pedra a quem pedisse pão. Prometeu que abriria a porta para quem batesse.

Deus não faz de você um fantoche, um palhaço e um instrumento de ridicularização. Deus lhe ama, lhe cuida e, em sua Providência, dispõe os meios para conseguires terminar a obra que Ele quer realizar em ti.

Deus é infinitamente misericordioso. É a misericórdia dEle que completará, realizará a obra em nós! O Rei do Evangelho de hoje foi pura misericórdia: não importava a pobreza, a miséria e a sujeira do convidado: ele providenciou a veste! Ele providenciou. Deus também age assim conosco! Não espera o nosso perfeccionismo moral! Ele age com pura misericórdia para conosco! Como desanimar, mesmo caindo sempre, mesmo sendo só miséria, diante do fato de que o nosso Juiz será aquele que por nós morreu! Que nos amou de tal modo que nos deu seu Filho único?

Como desanimar diante do fato de que, em todos os Evangelhos, praticamente Jesus só quis estar ao lado de pessoas erradas? Como desistir diante da Cruz, da Eucaristia, dos sacramentos, que fazem com que a nossa salvação seja obra só de Deus? Como desanimar quando sabemos que Ele nos amou ainda quando éramos pecadores?

Somos nós que trocamos a constância na vida espiritual: trocamos a misericórdia de Deus pelo perfeccionismo.

Por fim, como desanimar diante da onipotência de Deus? Ele fez reviverem ossos secos, fará reviver sua alma! Ele fez grandes pecadoras da impureza, como a Madalena, tornarem-se a primeira no coro das virgens. Ele transformou água em vinho, Ele caminhou sobre as águas, Ele fez abrir o Mar Vermelho, Ele fez cair o maná do céu. Ele ressuscitou mortos, Ele curou cegos, surdos e mudos.

Ele pode, tudo pode. Ele pode fazer, quer fazer e está fazendo a obra da Providência dEle em sua vida. A você? Cabe aceitar e descansar nEle. Fazer sua parte, a parte que você sabe que deve fazer, mas sempre em conformidade com as disposições da Divina Providência.

“Vinde a mim, vós todos que estais desanimados, ou seja, vinde a mim, orgulhosos, que confiam em vossas forças, vinde a mim e achareis descanso”. Achemos descanso no Coração de Deus!

Esperemos em Deus, Ele ainda não terminou a obra que iniciou em nós. 

Sua vida, sua santidade, sua família são obra do Senhor, e Ele ainda não terminou a obra dEle. Espere nEle, descanse nessa esperança e deixe Deus completar a obra.

O Senhor haverá de nos encontrar com as vestes nupciais. Façamos nossa parte, retiremos os empecilhos para que Deus possa nos vestir. Confiemos, esperemos nEle. No nome dEle, e não no nosso, é que se encontra o nosso auxílio, nossa esperança.