Considerações católicas sobre a maternidade

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 14:35

           Aprouve à Divina Providência operar a nossa redenção por meio de uma Mãe! E que Mãe: a mais perfeita e mais pura Mãe! O pecado entrou no mundo pela nossa antiga mãe, Eva, e a redenção na graça se operou por meio da nossa nova mãe, a Virgem Maria. Mãe é tão boa, diz a sabedoria popular, que até Deus quis ter uma.

            Não há homem neste que não considere a grandeza deste ofício. Por isso, meus caros amigos, neste primeiro instante do sermão, gostaria de lhes fazer meditar nos nossos deveres, naturais e religiosos, para com nossas mães, e os deveres das mães em relação ao seu grandioso ofício.

            Os filhos, em primeiro lugar, devem tomar consciência da grandeza daquilo que é a figura materna. Às mães, os filhos devem respeito, obediência e honra, ou seja, veneração. Respeitar a figura da mãe com a justa veneração, significa evitar com todas as forças possíveis qualquer ato de insolência, ultraje e desrespeito. É uma postura que nos impõe a nossa própria natureza e que exige a virtude da justiça. Devemos esta veneração aos nossos pais (e hoje falamos sobretudo das mães), pois jamais poderemos pagar em equidade, de igual-para-igual, a dívida que temos com nossas progenitoras: elas nos deram a vida, o sustento e a educação. Não é um favor que prestamos à elas quando as veneramos, é um tributo de justiça. Isso deveria ser evidente para todo homem vindo ao mundo, já que só pode vir por causa de uma mãe. É inconcebível que um cristão levante a voz contra sua mãe, ofenda-a com palavras e fazendo descaso dela. Devemos uma gratidão que nunca poderemos pagar por inteiro neste mundo. Por mais simples que seja a condição de nossas mães, e por mais alta que seja a nossa, nós só podemos ser o que somos, por causa de nossas mães. Inclusive se elas forem más e tiverem negligenciado seu papel de mãe, jamais conseguiremos pagar na mesma medida por  nos terem dado à luz. Lembrem sempre, caros filhos, que a mãe é aquela mulher que, muitas vezes se colocou por último, para que você fosse o primeiro. Somente no céu conseguiremos ver todos os sacrifícios de um coração materno.

            Inclusive, deixo um conselho às moças solteiras: ao escolherem um pretendente à marido, reparem no modo como ele trata a própria mãe. Um rapaz que fala mal da própria mãe, falará mal da própria esposa. Um rapaz que destrata e é violento com a mãe será, sem dúvida alguma, indiferente e violento com a própria esposa. O rapaz que não cumpre as ordens da mãe, ou cumpre mal, provavelmente será um marido imaturo e problemático. Tal e qual um menino trata a mãe, ele tratará sua esposa.

            Em segundo lugar, devemos considerar os deveres dos maridos para com suas próprias mães e para com suas esposas, mães de seus filhos. Em relação às suas próprias mães, os maridos devem, como todo ser humano, honrar a figura da mãe, se ainda vivem, e respeitar sua memória, se estas já morreram. Os maridos devem entender, entretanto, que a primeira mulher de suas vidas são suas esposas e, embora não devam negligenciar seus deveres naturais com suas mães, devem ter na esposa, mãe de seus filhos, a prioridade de suas vidas. Esta prioridade está, inclusive, acima dos próprios filhos. No tocante às questões internas da sociedade familiar, não são as opiniões da mãe do marido que devem gerir a vida da família, mas as reais necessidades do casal. A primeira mulher na vida de alguém casado, é sua esposa. “Maridos, amai vossas esposas como Cristo amou a Igreja”, nos ensina São Paulo. É dever, portanto, dos maridos, que honrem, venerem, respeitem e vivam por suas esposas, tendo sempre o bem dela diante dos olhos. Nos meios católicos tradicionais existe uma tentação muito perigosa e que prejudica gravemente a vida familiar e, sobretudo, a vida da esposa: o argumento de que quem manda é o marido. É verdade, é o marido o chefe da sociedade conjugal mas, quando o marido é despreparado, imaturo e inconsequente, toda a família sofre, sobretudo a esposa. Quantas fotos de famílias numerosas, onde todos sorriem lindos e felizes, mas a esposa guarda as feições do cansaço e do esgotamento. Muitas vezes, isso se deve à imaturidade dos maridos que, por assumirem mal suas funções, acabam tornando o fardo da esposa muito mais pesado do que deveria ser. É o típico caso da mulher que, ao casar-se, não ganha só um marido, mais um filho. É inconcebível que a esposa tenha de lembrar constantemente o marido das suas obrigações de pai e de cônjuge. Respeitar e honrar a mãe dos vossos filhos, estimados senhores, implica em assumir com maturidade a responsabilidade que os senhores têm no lar. Buscar prover o sustento do lar, acordar no horário, conversar com os filhos, parar de perder tempo com futilidades e outras coisas inerentes aos deveres de estado de um pai, é o mínimo que se espera de um pai de família, e é assim que um marido honra a mãe de seus filhos.

            Devemos considerar, em terceiro lugar, caríssimos, os deveres que uma mãe possuí dentro do seu próprio estado de vida. Dentro da união conjugal, na sociedade familiar, a missão da mãe é tão central que chamamos a união de marido e mulher de ‘matrimônio’, que significa, literalmente, ‘o ofício da mãe’, em oposição ao ‘patrimônio’, que significa ‘ofício do pai’, e diz respeito, primeiramente, aos bens externos da sociedade conjugal.

            A missão principal de uma mãe é gerar e educar os filhos. Não seria justo, nem natural, se a missão da mãe e do pai fosse apenas gerar filhos. É dever natural dos dois educar estes filhos.

            Educar significa conduzir, e as mães devem conduzir filhos, educá-los, nos campos próprios da natureza humana, ou seja, devem educar fisicamente, intelectualmente, moralmente e religiosa.

            Somos educados fisicamente por nossas mães desde o primeiro dia de nossas vidas. A educação física da qual falamos aqui diz respeito ao dever que nossas mães têm de nos alimentar e zelar pelo nosso crescimento. Só somos o que somos porque nossas mães não negligenciaram este dever. Sem o leite materno, não viveríamos, não cresceríamos, não seríamos o que somos hoje.

            Toda mãe tem o dever de educar intelectualmente seus filhos, isto é zelar para que as capacidades intelectivas da criança sejam desenvolvidas. Isso não significa, necessariamente, que os pais devem ser os professores dos seus filhos. Uma tentação comum, sobretudo nos ambientes tradicionais, é a de que os pais, as mães sobretudo, pensem que a missão delas é conseguir ensinar pedagogicamente seus filhos, em todas as matérias. Quando não conseguem fazer isso, logo dão a desculpa “piedosa” de que mais vale não saber isto ou aquilo em determinada matéria do que estudar em colégio fora de casa. O homescholling não é, em si ruim, do contrário, mas não devemos esquecer que educar intelectualmente uma criança não significa tomar às vezes de um professor na vida dela. Se você não tem capacidade para ensinar, querida mãe, se você não tem o conhecimento suficiente para transmitir o saber aos seus filhos e se isto gera um desgaste absurdo e desproporcional na sua vida familiar, ao invés de favorecer a educação intelectual dos seus filhos, provavelmente você está prejudicando intelectualmente suas crianças. Educar intelectualmente não impede que você confie a educação intelectual das crianças à pessoas e instituições preparadas para este fim e que você exerça seu dever de educação intelectual supervisionando, conferindo e acompanhando a instituição de ensino. São Tomás de Aquino, por exemplo, saiu de casa com sete anos para estudar com os monges. Os jesuítas fundaram os colégios a fim de remedir a falta de instrução do povo cristão. A Igreja criou as universidades. Uma das obras mais importantes de apostolado com as crianças, e que diga Dom Bosco, são os colégios.

            No que diz respeito à educação moral das crianças, é missão da mãe educar os filhos no caminho do bem, ensinando-os a repelir o mal e a buscar sempre a virtude. Para isso, as mães não devem hesitar ao corrigir devidamente seus filhos. Quem não corrige, não ama.

            Por fim, é dever das mães, muito particularmente das mães, garantir a educação religiosa das crianças. É a mãe quem deve ensinar aos filhos as suas primeiras orações. Quem tem mãe, sabe rezar! (o horror da música “mãezinha do céu”). É dever das mães instruírem os filhos nas primeiras noções de catecismo! Mas, eu ressalto dois pontos importantes dos deveres religiosos de uma mãe: primeiramente, preparar os filhos para a Primeira Eucaristia! O amor à Eucaristia virá, mais facilmente, se a criança aprender isso de sua mãe! Queridas mães, ensinem seus filhos a terem o maior respeito possível à Eucaristia: que aprendam a fazer a genuflexão, que aprendam a se ajoelhar diante do sacrário, que aprendam a se comportar na Santa Missa, que aprendam com o exemplo das senhoras, a maneira mais digna de comungar. Ensinem, queridas mães, que a comunhão deve ser recebida na boca e de joelhos e que a comunhão na mão é uma das maiores feridas da Igreja na atualidade. Mas, sobretudo queridas mães, as senhoras cumprem o dever de educar religiosamente vossos filhos, quando as senhoras ensinam aos vossos filhos a viverem de princípios religiosos, e não de circunstâncias. Ou seja, ensinem a modéstia, e que ela deve ser vivida tanto na missa, quanto fora dela. Ensinem o pudor, que deve existir na família, tanto quanto com os amigos. Ensinem que a religião é uma questão de princípios, não de circunstâncias.

            Queridos fiéis, é nobre, grande, altíssimo, mas ao mesmo tempo exigente e desafiador, o ofício da mãe! Por isso, neste dia em que o calendário civil celebra o Dia das Mães, rezemos de todo coração por todas elas, especialmente pelas nossas, afim de que, se vivem, sejam repletas das bençãos dos céus para cumprirem devidamente a missão que receberam e, se morreram, que sejam acolhidas nos braços de Deus, mediante a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Nosso Deus, e nossa mãe. À todas as mães, um feliz e abençoado Dia das Mães.