como devemos tratar os pecadores e os que não pensam como nós?

Sermão

Padre Lucas Altmayer, 21/06/2026 18:34

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das cenas mais belas e mais comoventes de toda a vida de São Pedro. Depois da pesca milagrosa, depois daquela abundância de peixes que quase fazia afundar as barcas, Pedro compreende que está diante de algo maior do que um simples mestre. Compreende que está diante da santidade de Deus.

E, como acontece sempre que a santidade de Deus se manifesta, Pedro descobre a própria miséria. E então exclama: "Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." É uma frase admirável. Porque Pedro não se justifica, não se desculpa e não minimiza as próprias faltas.

Não diz: "Não sou tão ruim assim!, e não se compara aos outros. Não diz: "Há homens piores do que eu." Ele apenas contempla Nosso Senhor e, diante daquela luz, vê a própria pobreza. "Sou um homem pecador."

E talvez esperássemos que Nosso Senhor respondesse: "Pois bem, Pedro. Volta para casa. Corrige-te primeiro. Torna-te digno. Santifica-te. Depois retorna." Mas não, a resposta de Nosso Senhor é exatamente o contrário. Quanto mais Pedro reconhece a sua miséria, mais Jesus se aproxima dele. Quanto mais Pedro confessa a própria pobreza, mais Cristo o chama. "Não tenhas medo. Doravante serás pescador de homens."

Caríssimos, esta é uma das grandes maravilhas do Evangelho. Nosso Senhor parece ter uma predileção pelos pecadores. Não pelo pecado, mas pelos pecadores. E toda a Sua vida parece ser uma demonstração dessa verdade.

Escolheu como Apóstolos homens simples, ignorantes, cheios de defeitos e fraquezas. Conviveu com publicanos, com prostitutas e com pecadores em geral. Escandalizou os fariseus justamente porque Se aproximava daqueles de quem todos se afastavam. E, no Calvário, quando chegou a hora da morte, morreu entre dois ladrões. Até na hora derradeira quis estar rodeado de pecadores.

Parece que Nosso Senhor gosta de procurar aquilo que está perdido. Parece que encontra uma alegria particular em aproximar-Se daqueles que o mundo despreza. Porque não veio chamar os justos, veio chamar os pecadores. E aqui existe uma verdade que deveria encher-nos de humildade: nós não estamos aqui porque somos melhores, não estamos aqui porque somos mais inteligentes Não estamos aqui porque somos mais virtuosos. Não estamos aqui porque merecemos mais do que os outros. Talvez estejamos aqui justamente porque somos os mais necessitados, porque somos os mais pobres, os mais miseráveis.

Porque o médico vai ao encontro dos doentes. Porque o pastor procura a ovelha ferida. Porque Cristo possui uma estranha predileção pelos miseráveis.

Os santos compreenderam isso profundamente: quanto mais se aproximavam de Deus, menos se julgavam superiores. Quanto mais se aproximavam da luz, mais percebiam a própria pobreza. É por isso que os santos eram humildes.

E os orgulhosos, ao contrário, julgavam-se sempre melhores do que os outros.

Caríssimos, se Cristo age assim conosco, como devemos agir com os pecadores que Deus colocou em nossa vida? Porque quase todos nós temos essas pessoas.

Talvez dentro da própria casa, entre os filhos, entre os pais, entre os irmãos, entre os amigos. Talvez no trabalho. Talvez entre pessoas que amamos profundamente e que, infelizmente, vivem longe de Deus. Pessoas que não compreendem aquilo que nós compreendemos. Pessoas que não amam aquilo que nós amamos. Pessoas que talvez tenham se afastado da Igreja. Pessoas cujas escolhas nos entristecem.

Como devemos tratá-las? À maneira dos fariseus, com desprezo, impaciência, dureza, superioridade? Não.

À maneira de Cristo. Porque a verdade sem caridade torna-se crueldade, e caridade sem verdade torna-se cumplicidade. Nosso Senhor fez ambas as coisas. Amou os pecadores e quis salvá-los. Jamais aprovou o pecado, mas jamais deixou de amar o pecador. E talvez esta seja a grande missão que Deus nos confia.

Interessar-nos por essas almas. Aceitá-las como são,  não como gostaríamos que fossem, não como imaginamos que deveriam ser. Mas como realmente são: feridas, confusas, desorientadas. E dar-lhes tudo aquilo de que necessitam para encontrar o caminho: as nossas orações, os nossos bons conselhos e os nossos exemplos. E, talvez mais do que tudo, a alegria de ser cristão. Porque há cristãos que falam da verdade com tanta amargura que fazem o erro parecer mais atraente. Há cristãos que falam da virtude com um semblante tão sombrio que fazem o pecado parecer mais alegre. Mas não foi assim com Nosso Senhor.

Os pecadores aproximavam-se d'Ele, gostavam de estar com Ele, sentiam-se atraídos por Ele. Porque encontravam verdade, mas encontravam também bondade.

Mas é preciso compreender bem esta lição. Porque alguém poderia concluir equivocadamente que, se Nosso Senhor convivia com os pecadores, nós deveríamos conviver indistintamente com todos, frequentar todos os ambientes e estabelecer laços profundos com qualquer pessoa, como se não houvesse perigos para a alma.

Ora, é preciso lembrar que nós não somos Jesus. Nosso Senhor descia ao meio dos pecadores para curá-los. Nós, muitas vezes, ainda somos os doentes. Ele era o médico, nós ainda estamos sendo tratados. Ele era a luz, nós ainda somos uma lâmpada vacilante, que pode ser apagada pelo vento. Ele podia tocar os leprosos sem ser contaminado, nós, ao contrário, muitas vezes somos contaminados por aquilo que julgávamos poder curar. Por isso, a caridade possui uma ordem.

E a primeira alma que devemos amar é a nossa própria. Porque seria uma falsa caridade perder a própria alma na tentativa imprudente de salvar a dos outros. Não devemos frequentar ambientes que colocam em perigo nossa vida espiritual. Não devemos expor-nos inutilmente às ocasiões de pecado. Não devemos viver como se o pecado fosse algo normal. Não devemos confundir amor ao pecador com familiaridade com o pecado. Nosso Senhor sentava-Se à mesa com os pecadores para convertê-los, jamais para imitá-los, jamais para participar de seus erros, jamais para dar a impressão de que tudo estava bem.

Depois de nossa própria alma, a caridade manda amar especialmente aqueles que Deus nos confiou. O marido deve amar a esposa, a esposa deve amar o marido. Os pais devem amar os filhos, e os filhos, os pais. Antes de querer salvar o mundo inteiro, é preciso amar aqueles que a Providência colocou sob os nossos cuidados.

Depois, segundo as circunstâncias e as possibilidades, devemos exercer a caridade para com os demais familiares, para com todos os homens e para com aqueles que a Providência coloca em nosso caminho. Mas também aqui é necessário compreender outra verdade: nem todas as pessoas que conhecemos são propriamente nossos amigos. A amizade é uma coisa elevada demais para ser banalizada.

Os antigos diziam que o amigo é outro eu. E Santo Agostinho dizia que os amigos são aqueles que amam juntos as mesmas coisas. Em certo sentido, os verdadeiros amigos são aqueles que amam aquilo que nós amamos e odeiam aquilo que nós odiamos. Amam a Deus, amam a verdade, desejam o Céu, odeiam o pecado.

É natural, portanto, que os laços mais profundos de amizade sejam reservados para aqueles que caminham conosco na mesma direção. E isto não é falta de caridade. Não odiamos aqueles que vivem longe de Deus. Não os desprezamos, não os abandonamos. Mas também não estabelecemos com eles uma intimidade que possa colocar em risco a nossa alma ou a nossa perseverança.

Existe uma diferença entre ajudar alguém e fazer dele um companheiro de caminhada. Existe uma diferença entre a caridade e a amizade. E seria igualmente uma falta de caridade agir como se nada pudéssemos fazer por essas almas. Porque, se está ao nosso alcance rezar, aconselhar, dar exemplo, oferecer um sacrifício, uma palavra de esperança ou um convite para se aproximarem de Deus, então o amor cristão nos obriga a fazê-lo. Não somos responsáveis pela conversão de ninguém. Esta pertence a Deus. Mas somos responsáveis por não deixar de fazer aquilo que a caridade nos permite e aquilo que a Providência coloca em nossas mãos.

Caríssimos, talvez grande parte dos pecadores dos nossos tempos não seja composta por homens particularmente perversos. Muitos são apenas homens feridos, homens carentes, homens desorientados, homens que nunca aprenderam, que nunca tiveram quem lhes mostrasse o caminho, que cresceram sem referências. Mulheres que carregam feridas profundas. Jovens que jamais ouviram uma palavra de esperança. Almas que se acostumaram ao pecado porque nunca conheceram algo melhor.

É verdade que existe malícia, que existe perversidade, mas existe também muita miséria, solidão, ignorância e muita tristeza.

E quantas vezes uma alma se perde não porque odeia a luz, mas porque nunca houve alguém para acender uma lâmpada. Talvez Deus queira que sejamos essa lâmpada. Não uma lâmpada que humilha, mas uma lâmpada que ilumina. Não uma lâmpada que condena, mas uma lâmpada que conduz.

E aqui devemos recordar uma verdade consoladora: a conversão das almas não depende principalmente de nós. Quem converte é Deus, quem toca os corações é Deus.

A nós compete apenas sermos instrumentos. Sermos fiéis, sermos pacientes e nunca perdermos a esperança.

Porque se Nosso Senhor teve paciência conosco, talvez possamos ter paciência com os outros. E se Ele não Se afastou de Pedro quando este disse: "Sou um homem pecador", talvez também não Se tenha afastado daquela alma pela qual nós rezamos há tantos anos.

Por isso, proponho hoje uma resolução muito simples. Pensai naquela pessoa que mais vos faz sofrer, naquela alma que parece mais distante. Naquele filho,  marido, esposa,  irmão, ou naquele amigo. Naquela pessoa cuja conversão vos parece impossível.

Durante esta semana, rezai por ela todos os dias, oferecei um pequeno sacrifício por ela e, sobretudo, não percais a esperança.

Porque aquele mesmo Jesus que chamou Pedro, que Se sentou à mesa com os publicanos e que morreu entre ladrões, continua a procurar pecadores. E talvez, neste exato momento, esteja procurando justamente aquela alma.

Afinal, se Cristo não tivesse amado os pecadores, nenhum de nós estaria hoje nesta igreja. Porque todos nós, sem exceção, somos homens pecadores. E foi precisamente por isso que Ele veio.