Padre Lucas Altmayer, 23/05/2026 14:28
A Santa Igreja celebra hoje mais um domingo Laetare, domingo da alegria.
A alegria meus amigos, é o bem que todos procuramos. Fomos feitos para a alegria. Quando chegarmos ao céu, se assim o merecermos, veremos que ele é o lugar da bem-aventurança, da alegria eterna. A alegria, como sabemos é a posse de um bem. No Céu, possuiremos o Verdadeiro e Maior Bem: Deus, Ele mesmo. Por isso, no céu não há lugar, por menor que seja, para a tristeza. Não existe santo triste. Impossível associar santidade com tristeza.
Se a alegria nasce da posse um bem: eu possuo tal coisa, então eu sou feliz, nós compreendemos que existem dois tipos de bens: os bens sensíveis e os bens sobrenaturais. Os bens sensíveis são os bens materiais e imateriais deste mundo: dinheiro, casa, amigos, festas, prazeres de todo tipo. Quando desejos estes bens, nos sentimos alegres ao possuirmo-los.
Os bens sobrenaturais, são aqueles que nascem do fato de possuirmos Deus como nosso único bem! É a alegria que a fé nos dá. A alegria que vem da Cruz de Nosso Senhor. Foi essa cruz que nos abriu os céus, que nos fez filhos de Deus. Essa alegria é aquela que experimentamos quando possuímos a graça de Deus, quando vivemos com nossas consciências tranquilas.
Se o homem foi feito para a felicidade, devemos saber que isso não significa que fomos feitos para colocar nosso fim último em qualquer alegria. As alegrias sensíveis são muito distintas das alegrias sobrenaturais.
As alegrias sensíveis, como eu dizia, são as que nascem da posse de bens sensíveis. Essas alegrias são efêmeras, rasteiras e perigosas, e só por isso não devem ser vistas como nosso fim último, ou seja, não devemos viver para elas.
Elas são efêmeras, ou seja, passageiras. Passam logo que o momento que nos causa alegria passar. Passam quando terminamos de tomar aquela bebida que gostamos, passam quando voltamos para casa depois de uma noite de festas, passam quando os amigos vão embora, passam, enfim, quando os consolos passam. Para ser feliz possuindo os bens sensíveis é necessário multiplicar ao infinito as fontes destes bens. E por isso meus amigos, muitas vezes estamos cansados, exaustos, pois ficamos colocando nosso fim último nas alegrias efêmeras desse mundo. Nos entristecemos pois não temos dinheiro para isso e para aquilo, pois tal pessoa não quer ser meu amigo, pois não temos tudo o que gostaríamos de ter, pois ninguém reconhece nosso valor e assim por diante. Estar feliz segundo os bens deste mundo cansa, pois consome nossas forças, e nos faz querer construir nossa felicidade, num alicerce efêmero. As alegrias sensíveis são efêmeras e têm como fruto a fadiga de quem vive unicamente para elas.
As alegrias sensíveis são efêmeras e são rasteiras, ou seja, são baixas. Quando pensamos que fomos feito para o céu, que nosso bem maior é Deus, nos espantamos do quanto as alegrias deste mundo são pequenas. Todos já experimentamos aquele sentimento de tristeza alheia que nasce depois que nos convertemos, quando vemos, por exemplo, nossos familiares, para quem Deus não é o centro, viverem ocupados demais para as coisas deste mundo, e nada preocupados com os bens sobrenaturais. Organizam férias e passeios na semana santa, para aproveitar o feriado, organizam almoços de domingo bem no horário da Missa, marcam churrasco bem na sexta-feira a noite, e assim por diante. A vida destas pessoas é bem rasteira, muito baixa. Voam como galinhas, rastejando, enquanto deveriam voar alto, como águias. Como é fútil uma vida feita para as alegrias deste mundo. O fruto dessa alegria rasteira é uma vida de contrariedades: possuímos muitos bens, mas somos pobres de alegria verdadeira, pois nossa vida é muito rasteira.
Além de efêmeras e rasteiras, as alegrias deste mundo são perigosas. Se para ser feliz devemos buscar os prazeres sensíveis, é óbvio que devemos multiplicar ao infinito as fontes do prazer. Passamos de um simples momento de descanso, para um momento de ócio. Passamos de uma simples busca ociosa na internet, para pesquisas perigosas e logo nos encontramos em meio às buscas pecaminosas. Passamos de uma simples conversa com um amigo para uma ocasião de fofocas, calúnias e difamações. Quem vive só para as festas, passa rapidamente a querer muito mais do que só ir a uma festa. Enfim, enfiamos nossa vida na lama dos prazeres. E o pior de tudo é que pensamos ser felizes verdadeiramente. O fruto dessa alegria é a frustração. Possuímos o que queríamos e, no entanto, somos tristes.
Mas a alegria que vem das coisas sobrenaturais é bem diferente. Ela é duradoura, elevada e santa.
Duradoura, pois ela coincide com nosso verdadeiro e único bem, Deus. Não é necessário buscar fontes infinitas de alegria, como no caso das alegrias sensíveis. Quem tem Deus, tem tudo e absolutamente nada lhe falta. O Senhor é o meu pastor, não me falta coisa alguma. A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida, perguntavam os apóstolos. Onde mais achar alegria, senão em Deus Nosso Senhor? Quem tem Deus, não precisa ficar vivendo na fatiga da busca das alegrias sensíveis. Já é feliz. Por isso, não é possível ser, autenticamente, católico e triste ao mesmo tempo! A alegria é o hábito de um católico, pois para ele nada falta! Só Deus basta! O fruto dessa alegria sobrenatural é a paz, que nos faz descansar e viver despreocupados da busca dos bens sensíveis.
Além de duradoura, esta alegria é elevada. Ela é própria de quem entendeu que esse mundo é vaidade, que tudo isso vai passar e que, não importa o que façamos, um dia abandonaremos tudo isso e as coisas que pensamos ter já não estarão sobre nosso domínio. Esse mundo é vaidade. Deus é alegria! E que alta alegria! Por isso, é muito mais feliz uma carmelita que vive na pobreza e no claustro de um Carmelo, do que um homem vaidoso, rico ou pobre, que vive para as coisas desse mundo. A alegria que vem de Deus é infinitamente superior àquela que vem dos bens sensíveis. É muito mais nobre e infinitamente mais feliz, um pai de família que não evita os filhos que Deus o quer mandar, do que um homem rico e bem-sucedido, que vive para as vaidades desse mundo. O fruto dessa alegria elevada é uma alegria estável e duradoura. E nesse sentido, meus amigos, nossa alegria deve estar baseada na meditação, ou seja, na contemplação! Devemos viver com um olhar sobrenatural. Um homem que não medita, dificilmente pode ser verdadeiramente feliz. Pois se essa alegria que vem de Deus é uma alegria que vem das coisas mais elevadas, é necessário elevar o nosso pensamento até essas realidades. E elevar o pensamento às realidades eternas, é o que chamamos de meditação e contemplação. Se você é católico mas é triste, pergunte-se como anda sua vida de oração e se nela existe espaço para a meditação.
Por fim, a alegria que vem de Deus nunca é perigosa ou ilícita. Deus é uma fonte inesgotável de alegria. E, se as alegrias sensíveis, quando deixam de ser lícitas, nos condenam, as alegrias de Deus, bem do contrário, nos santificam. Podemos beber sem medidas das alegrias espirituais. O fruto dessa alegria é a tranquilidade. Sabemos que possuímos o nosso Bem verdadeiro e que atingimos nosso fim, nossa bem-aventurança eterna.
Neste domingo da alegria, meus caros amigos, façamos o firme propósito de abandonar a busca tão frenética pelas alegrias sensíveis e dediquemo-nos a buscar a alegria verdadeira, que vem de Deus! Se a Igreja celebra o domingo da alegria durante o tempo da quaresma é para nos mostrar que a alegria também é uma ascese e que não é possível ser verdadeiramente feliz sem esforço e sacrifício. Que esta quaresma nos alcance a conversão de nossas vidas, a conversão de nosso conceito de alegria.