Padre Lucas Altmayer, 23/08/2026 14:06
O Evangelho deste domingo nos apresenta dez leprosos que, vendo Nosso Senhor, levantaram a voz e disseram: “Jesus, Mestre, tende piedade de nós.” Nosso Senhor os viu e lhes disse: “Ide, mostrai-vos aos sacerdotes.” E aconteceu que, enquanto iam, ficaram limpos. Dez homens receberam a mesma graça, dez homens obedeceram à palavra de Cristo, dez homens fizeram aquilo que Nosso Senhor lhes havia mandado. Entretanto, somente um voltou. E justamente aquele que voltou, aparentemente desobedecendo à ordem recebida, é aquele a quem Nosso Senhor diz: “Levanta-te, vai; a tua fé te salvou.”
E aqui encontramos uma coisa que pode nos causar estranheza. Se Nosso Senhor mandou que fossem mostrar-se aos sacerdotes, por que aquele que voltou é justamente o que recebe o elogio de Cristo? Se os outros nove simplesmente obedeceram, por que Nosso Senhor pergunta: “Não ficaram limpos os dez? E onde estão os nove? Não se achou quem voltasse e desse glória a Deus, senão este estrangeiro?”
Parece quase que o Evangelho está nos apresentando um homem que foi salvo por ter desobedecido, enquanto os outros nove foram repreendidos justamente por terem obedecido. Mas é exatamente aqui que precisamos compreender o que é a verdadeira obediência cristã.
Os dez obedeceram à letra da ordem. Foram mostrar-se aos sacerdotes. Mas um deles compreendeu o espírito daquela ordem. Ele percebeu que não havia recebido simplesmente uma cura, mas uma graça; e percebeu também que, por trás daquela graça, havia alguém a quem devia voltar para agradecer. Ele compreendeu que não bastava cumprir exteriormente aquilo que havia sido ordenado, porque a finalidade de tudo aquilo era conduzi-lo a Cristo. Por isso ele voltou.
E, voltando, deixou momentaneamente a letra da ordem para seguir o espírito daquilo que Nosso Senhor realmente queria dele. Aquele homem compreendeu que não havia sido curado simplesmente para cumprir uma formalidade religiosa, mas para encontrar o próprio Deus que o havia curado. Ele entendeu que o sacerdote poderia reconhecer sua cura, mas somente Cristo poderia ser a razão de sua ação de graças. E então voltou, lançou-se aos pés de Jesus e deu-Lhe graças.
É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Onde estão os outros nove?” Eles receberam a graça, mas não voltaram para a fonte da graça. Cumpriram a ordem, mas não compreenderam a finalidade da ordem. Foram obedientes exteriormente, mas faltou-lhes aquilo que dá alma à verdadeira obediência: a fé.
E aqui a Epístola de São Paulo aos Gálatas ilumina extraordinariamente o Evangelho. São Paulo nos recorda que a lei não pode estar contra as promessas de Deus e que a santidade não vem simplesmente da observância exterior da lei. A lei tem seu lugar, a lei é santa, os mandamentos de Deus são verdadeiros e devem ser obedecidos; mas a lei, tomada apenas como letra, não é capaz de produzir por si mesma aquilo que somente a graça pode produzir na alma. A salvação não consiste em acumular atos exteriores de observância, como se pudéssemos comprar o Céu pela simples execução de prescrições. O que nos justifica é a fé viva, uma fé que se torna esperança e caridade, uma fé que transforma a inteligência e a vontade, uma fé que nos faz compreender para que Deus nos deu os Seus mandamentos.
A letra é necessária, mas a letra não é suficiente. É preciso compreender o espírito. E aqui devemos tomar cuidado para não cairmos em um erro muito moderno. Quando dizemos que é necessário seguir mais o espírito da lei do que a letra, não estamos dizendo que a letra da lei pode ser desprezada, que os mandamentos podem ser relativizados ou que cada um pode inventar para si uma religião de acordo com aquilo que sente. Não é isso. Deus não nos deu mandamentos para serem tratados como sugestões. A obediência exterior é necessária e faz parte da verdadeira vida cristã.
Mas Nosso Senhor não quer escravos que simplesmente executem ordens sem compreender aquilo que fazem. Ele quer filhos que conheçam a vontade do Pai e a cumpram por amor. A verdadeira obediência não pergunta apenas: “O que foi mandado?” Ela pergunta também: “Por que Deus mandou isto? Para onde este mandamento quer me conduzir? Qual é a vontade de Deus que está por trás desta ordem?”
É aqui que entra a inteligência, que é a sede da fé. Deus não quer apenas que o homem faça coisas boas; quer que o homem compreenda a verdade, conheça o bem e, conhecendo-o, ame-o. A fé ilumina a inteligência para que o homem possa enxergar aquilo que está por trás das coisas exteriores. E aquele leproso teve essa inteligência iluminada pela fé: percebeu que sua cura não terminava no sacerdote. A cura o conduzia de volta a Cristo. Somente a este Nosso Senhor disse: “A tua fé te salvou.”
Caríssimos, talvez aqui exista uma advertência muito séria para nós, porque também nós podemos transformar a nossa vida católica em uma espécie de coleção de observâncias exteriores. Podemos ir à Missa, rezar o terço, fazer penitências, cumprir os mandamentos, guardar determinadas práticas, seguir determinadas regras e, ainda assim, não amar verdadeiramente a Deus. Podemos fazer tudo aquilo que um católico deve fazer e, no entanto, não ter o coração de um católico. Podemos obedecer à letra e perder o espírito, podemos conhecer as regras e não conhecer a Deus. Podemos saber exatamente aquilo que é permitido e aquilo que é proibido, mas não possuir aquela caridade que nos faz perguntar o sentido do que fazemos.
E aqui está uma diferença fundamental entre o espírito de uma religião meramente exterior e o espírito do Evangelho. O homem que vive apenas da letra procura saber o mínimo que precisa fazer para não transgredir. O homem que vive da caridade procura saber o máximo que pode fazer para agradar a Deus.
E qual é o coração da lei? Nosso Senhor já nos ensinou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças.” E depois: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Toda a lei e os profetas encontram seu resumo e sua plenitude nesses dois mandamentos.
Por isso, podemos enxergar nos dez leprosos uma imagem da própria lei, com seus dez mandamentos. Dez foram os que receberam a ordem; dez foram os que começaram a caminhar; dez foram aqueles que foram purificados. Mas somente um voltou e encontrou em Cristo aquilo que dá sentido a toda a lei: o amor a Deus.
Os dez mandamentos são como dez caminhos que nos conduzem à vontade de Deus, mas todos esses caminhos se encontram em um único centro: a caridade. Não existe verdadeiro cumprimento da lei sem amor a Deus. E não existe amor verdadeiro a Deus que despreze a Sua lei.
É por isso que a caridade não destrói a lei; ela a aperfeiçoa. A caridade não nos permite fazer menos do que Deus ordena; ela nos faz compreender por que Deus ordenou. A caridade não nos libera da obediência; ela transforma a obediência em um ato de amor.
O leproso que voltou não disse: “Como já fui curado, não preciso mais obedecer.” Ele fez algo muito mais profundo: compreendeu que a própria obediência o havia conduzido até Cristo e que agora precisava voltar para Aquele que era a razão de tudo. Ele não desprezou a lei, ele descobriu sua finalidade.
E talvez esta seja uma das coisas mais importantes que precisamos recuperar em nossa vida espiritual: a inteligência da fé. Não basta fazer, é preciso saber por que fazemos. Não basta cumprir, é preciso compreender. Não basta conservar práticas católicas exteriores, é preciso recuperar o espírito que lhes dá vida.
Por que rezamos o Rosário? Porque queremos estar com Nossa Senhora e, com Ela, contemplar os mistérios de Cristo. Por que vamos à Missa? Porque queremos assistir ao Sacrifício de Nosso Senhor e unir-nos a Ele. Por que nos confessamos? Porque queremos receber a graça que nos reconcilia com Deus e verdadeiramente abandonar o pecado. Por que fazemos penitência? Porque queremos mortificar aquilo que em nós se opõe a Deus. Por que guardamos a pureza? Porque amamos a Deus e queremos que nosso corpo seja templo do Espírito Santo. Por que obedecemos aos mandamentos? Porque amamos Aquele que os promulgou. Tudo deve terminar em Deus.
Há, porém, uma consequência ainda mais profunda que precisamos tirar deste Evangelho. Às vezes, para sermos fiéis a Deus, será necessário contrariar a letra de uma lei positiva para conservar aquilo que é o espírito da própria lei. O leproso que voltou é uma imagem disso: Nosso Senhor havia mandado que se apresentassem aos sacerdotes, e aquele homem, depois de reconhecer a graça recebida, interrompeu o caminho e voltou para Cristo. Ele aparentemente deixou de cumprir uma determinação exterior, mas fez aquilo que a própria determinação deveria conduzi-lo a fazer: deu glória a Deus e voltou-se para o verdadeiro e sumo Sacerdote. Há momentos, portanto, em que a fidelidade a Deus exige que saibamos distinguir entre a autoridade legítima e uma exigência humana que, por alguma circunstância, já não serve ao fim para o qual a lei foi estabelecida. E isso é particularmente importante para nós, porque pode acontecer que, para amar verdadeiramente a Deus e honrar a Sua Igreja, tenhamos de resistir a determinadas ordens, costumes ou exigências dentro da própria instituição eclesiástica, quando estas se tornam obstáculo à fé, à reverência devida ao culto divino ou à salvação das almas.
Será por amor ao Santo Sacrifício da Missa que, em determinadas circunstâncias, nos absteremos de participar de abusos e atrocidades litúrgicas, ainda que se trate de um dia de preceito; será para conservar a integridade da fé e a pureza dos costumes que nos afastaremos de maus pregadores e de ambientes que, embora se apresentem como católicos, acabam por incentivar mais o mundanismo do que a verdadeira vida cristã. Isso não é licença para cada um fazer aquilo que quiser, nem uma desculpa para transformar a própria vontade em regra de vida; é justamente o contrário. É preciso possuir inteligência, prudência e, sobretudo, uma consciência verdadeiramente formada pela doutrina católica, para saber distinguir a autoridade que devemos obedecer daquilo que, sendo apenas uma determinação humana, pode contrariar o bem maior que a própria autoridade deveria proteger. Não nos gloriaremos, portanto, de que nossa bondade esteja na observância exterior e legalista da lei, como o fariseu da parábola dos dois homens, mas procuraremos sempre a finalidade sobrenatural de cada mandamento e de cada preceito: guardar e aumentar em nós a fé, a esperança e a caridade. Porque a verdadeira fidelidade não consiste em cumprir a letra enquanto perdemos o espírito, mas em amar tanto a Deus que, em tudo aquilo que fazemos, procuremos conservar aquilo que a lei, em última análise, deseja produzir em nós: uma alma que conhece, espera e ama a Deus acima de todas as coisas.
E talvez seja justamente isso que faltou aos nove leprosos. Eles receberam a graça, mas não chegaram ao fim da graça. Foram até onde a ordem exterior os conduzia, mas não chegaram até onde a fé queria levá-los.
Caríssimos, talvez a nossa resolução para esta semana possa ser justamente esta: não nos contentemos com uma religião meramente exterior. Não nos contentemos em cumprir porque “é obrigatório”. Procuremos compreender o que Deus quer formar em nós através daquilo que Ele nos manda. Quando obedecermos, obedeçamos com inteligência; quando rezarmos, rezemos com fé; quando fizermos penitência, façamo-la por amor; quando cumprirmos um mandamento, procuremos fazê-lo com o coração voltado para Deus.
Voltemos sempre para Cristo, porque a vida cristã não consiste simplesmente em caminhar na direção que Deus nos indicou, mas em caminhar de tal maneira que, depois de recebermos Suas graças, saibamos reconhecer que tudo vem d'Ele e que tudo deve terminar n'Ele.
Os dez leprosos foram purificados, mas somente um voltou. Os dez obedeceram, mas somente um compreendeu. Os dez receberam a graça, mas somente um voltou para a fonte da graça. E é justamente a esse homem que Nosso Senhor diz: “Levanta-te, vai; a tua fé te salvou.”
Que Nossa Senhora nos alcance uma fé verdadeiramente viva, uma esperança verdadeiramente firme e uma caridade verdadeiramente ardente, para que não sejamos cristãos que apenas conhecem a letra dos mandamentos, mas filhos que compreendem o espírito da lei, que obedecem porque amam e que, depois de tudo o que recebem das mãos de Deus, sabem sempre voltar para junto d'Ele.